Era uma vez, um Bar…

Mooca. Esse nome de origem indígena significa “fazer casa”. Eu não sei bem se isto é uma lenda, ma, para mim, são todas as lembranças reunidas em um só nome: a minha Mooca. Bem, Mooca para mim, particularmente, não tem nada a ver com a palavra, mas com a saudade da minha infância, da alegria que era morar em um Bar.<br><br>“Como assim, morar em um Bar?”<br>Essa é a pergunta que todos fazem. É, eu morava em um Bar, mas não era um bar qualquer… Era o meu Bar que ficava na esquina da Rua Tobias Barreto com a Rua Sapucaia. Sabe onde fica? Não, não sabe não. O meu Bar é aquele onde tinha o melhor lanche de pernil da Mooca, o melhor cachorro-quente da Mooca, o melhor croquete de carne da Mooca. Tudo feito pela minha mãe.<br><br>Contarei essa história como se estivesse ao lado de minha mãe, que se foi e, com ela, levou as boas lembranças de um tempo de trabalho árduo, mas feliz. Porque era assim que ela se sentia quando via aquele Bar abarrotado de gente pedindo lanche de pernil com mais cebola, cachorro quente com muito molho, molho de verdade, de tomate fresquinho comprado lá no Mercadinho Municipal.<br><br>Conhece? Ah, claro, você não conhece, mas sabe onde fica a agência de banco na esquina da Rua Siqueira Bueno. Era lá que minha mãe comprava um pernil, temperava muito bem temperado, igualzinho ao modo como o Senhor Prata, um amigo também português, ensinou à ela. Era lá que meu pai comprava café moído na hora para fazer aquele cafezinho, naquela máquina bonita de se ver, que deve estar em algum canto de um museu qualquer. Não, não era um cafezinho qualquer, era o café do meu Bar.<br><br>Se fosse hoje, o meu Bar se chamaria Disk-pernil, mas o nome de verdade era Bar Santa Catarina, mais conhecido como O Bar da Dona Gracinda.<br><br>Tinha até uma imagem da santa na prateleira, ao lado de um barco enfeitado com as cores do Corinthians, junto à televisão. Televisão? É… O meu Bar era o único da vizinhança que tinha uma televisão e todos se reuniam para assistir a televisão que só o meu Bar tinha.<br><br>Domingo era dia de Circo da Arrelia e lá ficavam pais, mães, crianças de todas as idades. As tardes de domingo do meu Bar era uma festa só!<br><br>Festa inesquecível, como nos dias em que todos aqueles memoráveis comediantes do Grande Show União da TV Record saíam da telinha como num passe de mágica. E lá estavam eles, a vivo e a cores, tomando o famoso cafezinho do meu Bar! É, isso mesmo, quando o Show era realizado no Clube Castelo (aquele que ficava no pequeno prédio do número 838 da Rua Sapucaia), Walter Foster, Walter D´Ávila, a querida Catifunda e mais um monte de artistas se reuniam no meu Bar para tomar cafezinho que o meu pai fazia.<br><br>Era em frente ao Clube Castelo que minhas amigas, eu e minha irmã gêmea passávamos curiosas para dar uma pequenina espiada nos maravilhosos casais. As damas elegantemente vestidas com seus belos trajes rodados, à la anos 50. Os cavalheiros impecáveis em seus ternos de linho, rodopiando pelos salões, embalados ao som de uma orquestra tocando ao vivo a legendária música “Bessame mucho”!<br><br>Inesquecíveis também eram as festas juninas que aconteciam na rua em frente ao clube, quando se montava uma verdadeira quermesse a céu aberto. Tinha quadrilha, corrida de saco, corrida de ovo na colher, barraquinha de pescaria, bombas, bombinhas, morteiros, biribas e até lança-perfume!<br>Ah… O melhor era o ponto alto da festa, o pau-de-sebo. Não sabe o que é? Era um bando de homens, rapazes e crianças, uns apinhados nos outros tentando escalar um poste de madeira de 10 metros fincado ao chão e todo ensopado de sebo, escorregando de volta ao chão, em tentativas intermináveis de alcançar o grande desafio: chegar ao topo e ganhar o maior prêmio da festa. E é claro, durante toda a festa, que durava um final de semana, todos iam tomar guaraná e aquele cafezinho do meu Bar que o meu pai fazia.<br><br>O que falar então das comemorações das Copas do Mundo? Para mim, a de 1962 foi a mais incrível. Vivenciar aquilo tudo aos meus 10 anos foi fantástico. Meu coração disparava quando, escondidinha em um canto do meu Bar, tentava compreender aquela comoção coletiva. Ao final do último jogo, todos estavam na esquina e eu, em um misto de medo e fascinação, vibrava com tantos fogos, busca-pé, bombas e gritos estridentes, acredita?<br><br>Você pode até achar que já viu coisa igual ou até mais fantástica… Porém, a minha mãe contava que a melhor delas foi mesmo a primeira, a de 1958, tal a emoção indescritível que tomou conta de todos os amigos fregueses do meu Bar. Eles compravam caixas de cervejas, paravam o trânsito da rua onde já passavam ônibus e muitos carros e ninguém seguia em frente antes de comemorar com ao menos um gole!<br><br>Meu pai, aos 86 anos, contava que o meu Bar só virou boteco quando ele comprou uma mercearia, em 1955, no tempo em que a minha família chegou do Paraná, depois de viver 5 anos em um parque de diversões onde nascemos, eu e minha irmã gêmea. Como assim? É. Nascemos em um parque de diversões, mas esta é outra história!<br><br>E-mail: [email protected]