Transcorria o ano de 1956. Eu morava com meu irmão, meu padrasto, minha mãe e minha avó em uma casa localizada no bairro de Santana, uma casa modesta, porem não faltava nada para a nossa sobrevivência.
Para ganhar uns trocados eu e meus irmãos nos tornamos engraxates no largo de Santa Terezinha, bem próximo ao inesquecível Cine Colonial, local dos antigos filmes que norteavam a fantasia dos jovens da época. Não víamos a hora de chegar o domingo para vivenciar esses momentos. Como foi duro conseguir um espaço para trabalhar de engraxate, a concorrência era uma grande barreira a ser transposta, mas persistindo consegui um lugar para desenvolver essa atividade.
Não era eu um grande engraxate, pois várias vezes sujei as meias dos fregueses, era perdoado com um sorriso sincero. Outros engraxates desistiram, não aguentaram ficando apenas eu como o único a trabalhar. Era véspera de Natal um domingo eu desde cedo lá estava a espera dos fregueses que alias eram muitos, mal dava tempo de atender a todos, deu para ganhar muitas notas de um cruzeiro; a figura do Almirante Tamandaré até sorria para mim como por encanto.
Nem percebi o passar das horas e o meu pessoal já devia estar me esperando para a ceia de Natal. Mamãe, uma ótima cozinheira, estava preparando um bacalhau que a gente só comia nesta ocasião.
Eram 23h e nada de o garoto chegar, diria meu padrasto posteriormente. E então aconteceu o inesperado, uma chuva torrencial me deixara todo molhado, todavia todo encharcado adentrei a sala levando nas costas a rudimentar caixa que simplesmente, devido a chuva, desintegrou-se ante o sorriso de todos, era o espírito de Natal que ficava no ar. Era apenas um garoto de calças curtas, tudo era poesia. Era uma noite de Natal…
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