Desmesurada cidade, São Paulo dá raras oportunidades de reencontro para os colegas de bancos escolares. Quase todos nós, veteranos da vida, temos uma acentuada nostalgia para com nosso período da juventude, na tranquila cidade que já foi esta, e no despreocupado convívio com os amigos de escola. E não sou exceção a esta quase regra.
Já havia procurado alguns deles, sem sucesso. Busquei por décadas, mas como encontrar? Cheguei a crer que jamais os veria novamente. Mas, chegou à internet, e as coisas mudaram em todos os sentidos, e também nestas buscas.
E aí, vencendo as distâncias, o imenso tempo decorrido, uma vida inteira de perdas e ganhos, repentinamente se torna possível reencontrar os velhos amigos, a um simples toque de teclado. “Ploc!” Um segundo e as probabilidades aumentam espantosamente.
E se não temos sucesso, de algum modo eles acabam por nos achar. Lembro-me bem do período no qual estudei no curso noturno do Colégio de Aplicação, na Rua Gabriel dos Santos, nas Perdizes. Tive poucos, mas bons amigos. E o ambiente, apesar do adiantado da hora, era acolhedor e ameno.
Ás vezes, a turma da classe se reunia para ver o “bang bang” da ocasião, filmes de guerra e outros, nos vários e bons cinemas da redondeza. Ou tomar uma cervejinha com pasteis, ali mesmo no pedaço. Como diz o velho clichê, mais que batido, bons tempos…
Depois, a maturidade, e a diáspora. A loucura da vida urbana, empregos, novos compromissos, amizades e amores. Então: “Adios muchachos compañeros de mi vida, farra querida… Para nunca mais”. Será mesmo? Ledo engano, pois da terrível tela da internet, como a do Grande Irmão de "1984", de George Orwell, nada escapa.
E, como dizem, um belo dia, abrimos uma mensagem inédita. E o nome é familiar, apesar de cinco décadas. Um velho amigo de colégio. Pronto, fomos descobertos. Este se encontra fora de São Paulo, mas imediatamente se comunica com outro amigo que mora aqui, e até perto de casa. Inopinadamente, ele resolve me visitar. Quanta alegria em revê-lo, ainda nesta vida!
Convida-me para um almoço – outra coincidência- que será para o dia seguinte, do pessoal de outro colégio, mas do qual ele e minha turma mais chegada da Gabriel dos Santos haviam participado. E lá vou eu ao grande e simples restaurante na Rua Tito, Vila Pompéia.
Mas de início noto a diferença: diferente das expansões de alegria e fartos brindes, tão comuns nos almoços publicitários, ali são todos bem comportados. Falam baixo e comedidamente, e a meia Heineken que pedi foi a única bebida alcoólica que tocou a toalha da mesa, durante as várias horas que passei lá.
Circunspectos e com solenes comentários, observam velhas fotos amarelecidas,5X5, de seus tempos de grupo e futebol. Com minhas brincadeiras e ironias, sinto-me como o único "mau" elemento presente. Logo eu, tão tímido e calado naqueles tempos do colegial…
O mundo dá muitas voltas mesmo, e sinto que os caminhos ali trilhados, todos com sucesso, foram bem diferentes dos meus. As afinidades, que poderiam ter surgido do compartilhamento escolar, já não existem.
Tenho a impressão de estar em um conclave de seminaristas… Estas impressões foram acentuadas depois que enviei fotos do evento aos mais íntimos. E, para aquecer o novo relacionamento, desenhos e alguns textos.
Um só deles dignou-se a responder-me, meses depois. Não têm também o hábito da réplica e do retorno virtual. Eu entendo que quando se trata de um asséptico e genérico “Power Point”, tudo bem, mas não responder a mensagens e trabalhos pessoais?
Legal, são boas pessoas, mas nossa amizade não continua a mesma.
Esses 50 anos de distância, uma vida toda, foram demasiados e fazem-me lembrar uma cena do belo filme de Ettore Scola, "Nós que nos amávamos tanto", quando dois amigos, de destinos e mentes também bem diferentes, encontram-se na “Piazza del Popolo”, em Roma, após 35 anos de ausência.
Um deles, Antonio, convida o outro para jantar no restaurante de sua juventude, e despede-se. E o advogado Gianni, representado por Vittorio Gasmann, murmura:
– “Até mais 35 anos, Antonio”.
Ou seja, nunca mais!
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