E tudo acabou em uma quarta-feira…

Confete, pedaçinho colorido de saudade; a marchinha carnavalesca se soltava em alto e em bom som pelo amplo salão do Clube Regatas Tietê, era sábado de Carnaval do ano de 1960, tinha eu apenas l7 anos de idade. O clube Tietê, nome em homenagem ao famoso rio, na época pouco poluído, localizado ali bem perto da lendária Ponte das Bandeiras, aliás, sempre frequentado pela população local e redondezas e sempre fazia o Carnaval com aquela tradicional e costumeira alegria.

Bem próximo ao clube poderia então observar ao longe o bairro de Santana, onde na sua artéria principal, a Voluntários da Pátria, centenas de foliões atravessando a Ponte aos sons dos apitos intermitentes para este clube se deslocariam para curtir as fantásticas festas do reinado do Rei Momo; eram as fantasias coloridas, eram as brincadeiras sadias, foram dias maravilhosos onde amores nasceram e outros ficaram pela metade do caminho….

Sábado de Carnaval e lá eu estava no clube, pois era sócio, fantasiado de capitão da Marinha, meu sonho de consumo disposto a me divertir e eis que como por encanto no meio do salão encontro a garota dos meus sonhos, a menina quase mulher mais linda da minha rua, Ana Claudia era o seu nome; brecaria de imediato o meu ímpeto de ir ao seu encontro, o motivo: seu severo pai ali estaria de plantão a escoltando para qualquer investida, não deixaria qualquer mortal chegar perto, incontinente tive de me contentar a distância com o meigo sorriso dessa guria que perceberia a minha ansiedade de poder pelo menos tocá-la; a noite continuaria com a alegria contagiante no salão superlotado e nada de eu atingir os meus desejos, ficaria então chupando o dedo até chegar uma oportunidade, que nesse dia não aconteceria.

Domingo de Carnaval, tudo se repetiria: a mesma alegria contagiante, o lança-perfume na época pouco fiscalizado impregnaria o ambiente com o seu característico cheiro e eu sentiria a ausência dessa moça que abalaria as minhas estruturas, a mesma não viria nesta noite para o meu desapontamento, a frustração tomaria conta do meu coração, porém ao mesmo tempo teria a esperança que no dia seguinte de Carnaval ela viria novamente ao clube…

Segunda de Carnaval, a mesma história do domingo, estaria conformado, porém no íntimo tinha a certeza da presença daquela Colombina e foi o que aconteceu para a minha satisfação, pois seu pai por um algum motivo não compareceria e aí pude desfrutar os momentos tão esperados, a companhia dessa deusa dos meus sonhos; a noite adentro eles foram realizados. Confete, pedaçinho colorido de saudade, cantarolava-se no espaço.

Terça de Carnaval, no salão novamente sou um Pierrot apaixonado, não tenho ninguém por perto para me incomodar, teria esta garota nos meus braços, não importando o futuro, o presente era o que interessava, ela estava ali linda como sempre…

Aconteceu então a madrugada, não queria que acontecesse, não teria mais o contato com aquele frágil corpo, o sol no horizonte despontaria e eu tive de me contentar com apenas um adeus; os beijos e carinhos foram trocados em forma de ternura, tínhamos nos separado, cada um pegaria o seu destino, era simplesmente uma despedida, meu coração tornar-se-ia em cinzas, foi um sonho de Carnaval, tudo acabaria em uma quarta-feira. Confete pedaçinho de saudade…

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