É melhor prevenir do que remediar

Corria já metade do ano de 1948. Estávamos em pleno mês de junho, mais precisamente, véspera de São João. Um frio gostoso assolava a nossa querida capital paulistana.

Fazia pouco mais de três anos que a Segunda Guerra Mundial chegara ao fim e a vida dos paulistanos já havia voltado ao normal. Já não se via mais as famigeradas filas para se comprar pão, carne e outros viveres que durante o período da guerra estavam racionados.

Nossos vizinhos, o casal Carlos Heytzmann e sua Esposa Anésia Rodrigues Heytzmann (casal de saudosa memória), pais de meus amigos Carlos Roberto (Beto Mama) e Mario Luiz, eram pessoas muito queridas, não só por mim e minha família, como também por todo o pessoal do bairro da Freguesia do Ó. Dois anos antes, o casal teve mais um filho, O João Lourenço (Joãozinho), então, o casal passou a comemorar com festa o Dia de São João.

Essas festas contavam sempre com a participação de todos os familiares do Sr. Carlos, como também os de sua esposa, Dna. Anésia. Participavam as irmãs e irmãos de Dna Anésia, o Zicão, as professoras Benedita e Irene, as gêmeas Celeste e Estela, Dna. Judith, também professora e mãe dos amigos que lamentavelmente nunca mais soube deles, o Zélito, o Acácio e o Contisio (que moravam na Rua Cotoxó na Pompéia).

Dna Benedita (minha professora de Catecismo) e Dna Porfíria, uma negra muito querida, irmã de criação de Dona Anésia, todas nascidas, criadas e morando na época na Freguesia, e na mesma casa, conhecida como chalé. Localizada no largo da Matriz Velha no inicio da Ladeira velha (infelizmente fiquei sabendo que a casa foi demolida).

E assim eu e minhas irmãs éramos uns dos poucos convidados presentes que não éramos membros nem fazíamos parte dessa família.

Na festa, havia de tudo que se usava pra fazer festa na época: pipoca, quentão, batata-doce, pinhão, uns bolinhos de fubá, fogueira, balão, mastro, fogos, fogueira e enfeites com bandeirinhas e pequenos balões coloridos (parece até que estou vendo tudo isso bem agora).

Ah! Quase estou deixando esquecido perdido nessas lembranças algo que em verdade, é a razão dessa história. Seu Carlos, homem experiente (trabalhava a muitos anos nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana na Praça Julio Prestes em frente á Avenida Duque de Caxias no Bom Retiro). Ao comprar os fogos para a festa, sabendo que seus filhos e todos seus sobrinhos eram crianças no máximo com dez anos, resolveu prevenir acidentes comprando somente os fogos sem bombas, considerados inofensivos.

Havia rodinhas, estrelinhas, biribas ou estalos de salão, aviãozinho, muito foguete e busca-pés, todos sem a bomba. A munição foi distribuída para todos que estavam presente para serem soltas na hora de erguer o mastro, e soltar os balões.

Eu peguei minha parte, um monte de biribinha, estrelinhas e uns 20 busca-pés, peguei os meus estalos enfiei no bolso da minha calça, ainda curta, peguei os busca-pés e, para ficar com as mãos livres, os coloquei com suas varetas enfiadas na alça de minha calça.

Não deu outra: no momento em que eu fui soltar meu primeiro busca-pé, uma faísca pulou nos demais e de repente todos os outros pegaram fogo ao mesmo tempo. Resultado: o povo todo da festa partiu para cima de mim para apagar o fogo, e eu correndo pra todo lado, tentando me livrar dos busca-pés preso na alça de minha calça.

No final, fiquei com boa parte de minha calça e camisa novinha queimada; se não fosse a providência daquele vizinho amigo, eu, com certeza, ficaria de barriga aberta e com meu intestino exposto.

Se aqueles busca-pés acesos ao mesmo tempo por acidente estivessem todos com bombas… Hoje eu seria apenas um retrato naqueles santinhos imprimidos e gentilmente oferecidos em missas de sétimo dia aos parentes e amigos. E é claro, com o passar do tempo (pois ninguém guarda essas tranqueiras para sempre), há muito eu estaria perdido em algum lixão.

Ou, então, já reciclado, usado e de volta ao lixo jogado, para novamente ser reciclado. Que horror!

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