O Zózimo ainda tinha algum dinheiro no bolso. Tomou o bonde no Largo da Lapa, se aboletou no reboque de trás, pisou no estribo curto, segurou no balaustre de madeira e esticou o corpo para fora do carro. Olhou para a parada ainda distante, na Avenida Francisco Matarazzo. Faltava um quarteirão ainda, para o ponto da Avenida Antártica.
Naquele bonde as caras eram todas estranhas, não conhecia ninguém. Às vezes, costumava cruzar com algum conhecido dentro do bonde. Hoje, porém, não tinha ninguém. Ele vinha do bairro da Lapa e o bonde fez uma parada obrigatória na descida da Rua Carlos Vicari, defronte ao curtume do Matarazzo. O bairro de Vila Pompeia estava todo impregnado pelo cheiro desagradável ao se processar o couro cru. Era costume dentro da fábrica do curtume colocar as peças em sacos de café em lugar ventilado durante um dia inteiro e o cheiro era amenizado. Mesmo assim, naquele dia, o cheiro estava forte.
O Zózimo foi até a Estação Ferroviária da Sorocabana junto ao pátio de manobras, no entreposto da Barra Funda, nas ruas João de Barros e Conselheiro Brotero, próximo ao folicular da Rua Brigadeiro Galvão, junto do Largo da Banana, no bairro da Barra Funda; para pegar as encomendas das frutas vindas do interior do estado para serem entregues e comercializadas na mercearia do Macalé.
Estavam próximo do Carnaval e a população do bairro dançava ao redor de uma fogueira armada no centro da rua; batiam palmas e usavam chapéus de palheta amarela e as roupas eram verdes e brancas e o ritmo repetia cânticos arrastados da malandragem com um leve tom de tristeza. Ali era o portal do samba, com desfiles de cordões e blocos carnavalescos que iriam logo mais, à noite, desfilar da Praça Marechal Deodoro até a Avenida São João, próximo aos correios.
Terça-feira gorda de carnaval. Às 9h da noite as odaliscas chegaram junto com a ala das baianas na passarela da Avenida São João. A Maria Oneide falou:
– Depois do desfile pela avenida, queremos ir ao baile no salão da Rua Turiassu, na Sociedade Esportiva Palmeiras.
– Há baile no Palmeiras? – disse o Zózimo fingindo ignorância. O Zózimo não via como chegar a tempo, depois do desfile da Escola de Samba Unidos da Barra Funda.
Deixaram o Zózimo falando sozinho. As filhas da dona Mariquinha também iam ao desfile do samba na passarela da Avenida São João. Por nada neste mundo iriam perder aquela festa do Rei Momo. Meninas sem juízo, meninas sapecas. Afinal das contas não havia mal algum aproveitar a mocidade. São tantas as tristezas da vida, que naquela ocasião era hora de desabafar e esquecer todas as frustrações e recalques. Pegaram o saco de confetes e serpentinas e foram para o desfile.
De acordo com a tática exercida nos anos anteriores, o Zózimo chorou miséria antes da hora do almoço, perante a família toda reunida. A Gioconda procurou em uma revista feminina um modelo de fantasia estilo bataclã. O Zózimo se opôs aos apelos da irmã.
– As coisas estão ruins, não há dinheiro para gastar em fantasias.
A Gioconda não se deu por achado. Continuou folheando a revista feminina. A família ficou em silêncio. O Zózimo espantou as moscas do açucareiro.
– Pois é isso mesmo, há espíritos maus rondando esta casa.
A Rita queria fazer o corso na Avenida Paulista. Cadê a fantasia de odalisca? Mexeu no baú debaixo da escada e começou procurar a fantasia. Achou duas caixas com bisnagas douradas de lança-perfumes da Rhodia. Da fantasia só restava um saiote rasgado e um par de flores vermelhas. Não podia usar aquele trapo.
Na Rua Barra Funda havia serpentinas enroscadas nos fios da Light. Escurinhos desfilando ao som do batuque trançando os pés em coreografias passistas pelo asfalto quente. No alto, na cabeça do Jamelão, na carapinha dura havia um punhado de confetes e serpentinas coloridas. Uma esguichada de lança-perfume no olho do Zózimo acabou cegando-o temporariamente. Amaldiçoou o sujeito de terno branco e gravata preta, que puxava o cordão no meio da rua.
Depois do desfile foram todos ao baile da Sociedade Esportiva Palmeiras, na Rua Turiassu. Na porta de entrada havia dois sujeitos mal-encarados contando uma pilha de dinheiro e no alto da portaria um aviso de que o convite custava vinte cruzeiros. Damas acompanhadas de cavalheiros não pagavam entrada.
O Zózimo aproximou-se do homem.
– O convite, por favor.
Não tinha. Muito menos dinheiro para comprar o convite.
– E porque não posso entrar?
– O senhor não tem fantasia.
No entanto, o Neco conseguiu entrar de graça porque era amigo do primo do vice-presidente do clube.
– Mas eu estou fantasiado, disse o Zózimo.
– Como fantasiado?
– Não vê moço? Estou fantasiado de João Bobo!
Acabou não entrando no clube. Ficou do lado de fora ouvindo as músicas tocarem… “É dos carecas que elas gostam mais"… “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí”… “Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço, riso de palhaço foi esse o meu amado fim”… Estavas louca por um trouxa pra fazer cartaz… A fantasia foi aquela que usei"…