Em um tom levemente interrogativo, o meu pai nos convidava a dar uma volta pelos jardins do Museu do Ipiranga. Invariavelmente a resposta era positiva e rápida. Silencioso sempre, o meu pai olhava o entorno, provavelmente se lembrando da sua infância pobre no Ipiranga e eu, na minha meninice, olhava com respeito os jardins magníficos. De tão gigantesco e sagrado eu imaginava que aquele espaço nem era meu. Especialíssimo demais para uma mortal que ainda dava os primeiros passos para algum entendimento.
Visitávamos o lugar com uma roupa melhor, com o par de meias mais branco e não comprávamos pipoca do carrinho e nem sorvete de groselha. Tentei comprar um picolé uma vez. Aluna de quarto ano primário, a professora resolveu nos levar até lá. A turma caminhou por ali, observando todos os detalhes possíveis. Perguntei a ela se eu poderia comprar um sorvete, ela respondeu: "Mas, Vera, eu não sou tua mãe". Não comprei.
Mas por ali rondava alguma poesia, melodias incrustadas nas paredes, dentro de uma arquitetura singular para a história do Brasil. Com uma arquitetura de inspiração renascentista e a busca da beleza mais perfeita, a forte presença dos aspectos humanistas e a utilização sistemática da perspectiva marcaram a renovação artística. Uma renovação nascida em uma Itália economicamente próspera e que se desabrochara na grande produção do conhecimento. Do ponto de vista técnico, a arquitetura eclética também se aproveitou dos novos avanços da engenharia do século XIX, como a que possibilitou construções com estruturas de ferro forjado e, além do uso e mistura de estilos estéticos históricos, a arquitetura eclética se caracterizou pela simetria, busca de grandiosidade, rigorosa hierarquização dos espaços internos e riqueza decorativa.
A cidade de São Paulo passou a ser o nosso maior retrato das grandes mudanças do final do mesmo século XIX. A antiga cidade de taipa de pilão foi sendo gradativamente substituída por construção de tijolos, trazidos pelos ingleses e fabricados posteriormente por italianos. A grande produção do café dinamizou a economia e o progresso se tornou bem mais visível. A abolição da escravatura promoveu uma forte migração – do campo uma generosa massa de escravos libertos se deslocou para a cidade buscando um trabalho mais digno e longe do açoite. Italianos, portugueses, espanhóis e mais tarde japoneses, árabes, judeus e tantos outros vieram para uma cidade única, receptiva para o trabalho e capaz de conviver com as diversidades culturais. Ou melhor, mesclando os valores para então gerar um saber mais refinado, ímpar, riquíssimo.
Foi o período da história em que o desenvolvimento comercial, urbano e cultural se firmaram de modo inconteste. Com uma indústria nascente, aos poucos o operariado urbano foi se formando e os bairros operários, com o Ipiranga, Braz, Mooca, Belém foram ganhando uma dinâmica própria, com as suas habitações pequenas, sempre ao lado da fábrica. E tudo na mesma cor.
E foi nesse momento histórico, no meio a transformações significativas e únicas, que surgiu a ideia de se erigir um monumento para homenagear um marco político daquele mesmo século: o episódio da Independência do Brasil ganharia o seu espaço cultural próprio, o Museu do Ipiranga. Bem ali, às margens do riacho, onde foi teoricamente difundido um imaginário coletivo apropriado para aquele tempo: a figura do herói, a valorização do ideal de nação.
Para a edificação do Museu, foi contratado como engenheiro o italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi em 1884, somente inaugurando sua obra arquitetônica seis anos depois. E não há um estudante no país que não tenha se encantado com aquela história amarrada de romantismo: o herói deu um grito, foi aplaudido, passou a ser venerado e a nação passou a ser tecida com as cores verde, sendo referência à casa de Bragança, da qual fazia parte D. Pedro I e o amarelo simbolizando a casa dos Habsburgos, da qual fazia parte a princesa Leopoldina, esposa do Imperador. Com ou sem a influência da Escola Romântica, sempre pronta a idealizar, o monumento retrata uma parte da identidade nacional. Impossível se passar por ali indiferente. Tem história ali, tem vida em movimento. Centenas de operários construíram um símbolo em um trabalho envolvendo suor e um cansaço infinito. Ciência e paixão, sonhos e buscas. Tempo… ah, o tempo, sempre cercado da eterna musicalidade das almas inquietas, da necessidade imperiosa do contar e deixar o olho brilhar com o encantamento das conquistas…
E hoje leio na Folha de São Paulo (edição eletrônica – 05/04/20l3):
"Os banheiros estão interditados por falta de condições, o mato invade os jardins, um resto de pipa está enroscado em uma das surradas estátuas dos representantes da independência do Brasil e a cripta com os restos mortais de D. Pedro I serve de "motel" para casais mais afoitos. Os elementos formam o atual cenário do complexo dentro do Parque da Independência, com o Monumento à Independência, museu e áreas protegidas, no Ipiranga, na zona sul de São Paulo".
E, apesar de todos esses pesares, atropelos de sentimentos, refletindo sobre a construção histórica do Brasil, é preciso resistir. Fabricar forças para que o conhecimento tenha espaço, saber que as críticas haverão de inundar as nossas almas, ferir sonhos, mas o projeto de nação não foi definido. É preciso gritar, mas gritar muito, muito mais que o grito simbólico do primeiro imperador. Urrar, fazer acordar… acordar para o respeito aos trabalhadores do conhecimento, criticar apontando soluções, sofrer para a defesa do espírito. E jamais esmorecer. Que tenhamos vida, crenças e a sabedoria para não nos entregarmos à mesmice.
Por isso, cito Drummond:
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!