Em 1966, no cine Metro, na Avenida São João, foi colocado em cartaz, "Dr. Jivago", que permaneceu por aproximadamente dois anos.
Não tenho constrangimento de dizer que o assisti por 86 vezes. Foi uma experiência e tanto, eu era um garoto e Lara foi a figura feminina que mais me impressionou na época. Depois seu noivo, Strelnikov, representado magistralmente por Tom Cartney, pela sua personalidade e caráter forte.
Dr. Jivago como filme foi uma obra prima do diretor David Lean, adaptando o romance de Boris Pasternak, que colocava em pauta um triângulo amoroso, ou melhor, uma paixão que estava acima de qualquer coisa, deixando como pano de fundo a Revolução Russa dentro da primeira guerra mundial. Romance que fez Boris Pasternak (formado em filosofia na Alemanha, filho de um professor de pintura e de uma pianista) receber o Prêmio Nobel, na Suíça e não na Russia, pelo fato do comportamento da figura central (Dr. Jivago) ir na contra-mão do sistema implantado na União Soviética na época.
Trabalhava na Rua Formosa, e toda noite ia assistir a Dr. Jivago. Acabei por decorar o script do filme. Cenas fantásticas, fotografias incomparáveis, atuações memoráveis. Foi no cronograma da minha existência até hoje, a maior obra do cinema. Eu morava quase em frente ao Cine Metro. Quem lembra da cena em que Kamarovsky levou Lara de trenó, deixando Dr. Jivago sozinho num casarão no meio da neve, já quase no final do filme?
Minha vida nesta época era na Rua Formosa, São João, Largo do Paissandu, quando almoçava no giratório. Por um acaso ainda existe o Giratório? Galeria Olido, impressa num óleo sobre tela a noite, por um amigo meu, que saudades!! E tinha o Ponto Chic, onde tomei café algumas vezes. Era época da ditadura, e lembro que uma noite ao sair do Cine Metro, fui pego sem documentos na Avenida Ipiranga pelo exército, sem documentos, não podia provar quem era, sendo comprido demais para convencê-los de que era menor, levaram-me para uma delegacia em Campos Elíseos.
Quando o delegado perguntou-me quem eu era eu sabia que não adiantava dizer a verdade, porque não trazia documentos, então disse que era um príncipe. Ele olhou para o investigador ao lado, e voltando-se para mim disse: Garoto, diga-me onde é teu reinado que quero ir embora com você e largar toda essa m… aqui! Foi uma risada só. Expliquei que tinha 16 anos e havia deixado os documentos no trabalho. Mesmo assim fui levado para a Febem na Celso Garcia onde permaneci um dia e uma noite. O almoço era servido num prato plástico azul bem sujo, com as bordas encardidas: arroz, feijão, e uma coisa a mais, que até hoje não sei o que era, e mais uma banana de sobremesa. Um garoto servia o almoço, e um maior e forte, controlava a turma sozinho, e era respeitado. Lembro que fui olhar através da cortina de uma porta e ele impediu-me com autoridade de uma madrasta de contos infantis. No dia seguinte fomos levados ao centro da cidade para um lugar que ficava numa rua íngreme perto da Praça das Bandeiras. Lá, fomos colocados em fila para prestar depoimento. Na minha ficha ficou: “constado falta de documentos”, e fui liberado em seguida.
O militarismo teve um lado de que você podia tomar um sorvete na Praça da República à meia noite sem perigo (desde que documentado). Mesmo depois deste episódio, no dia seguinte fui assistir a Dr. Jivago novamente. Tinha as minhas cenas prediletas e os diálogos favoritos. Uma das cenas inesquecíveis foi a de um bolchevique que no trem, quando acorrentado disse: Sou o único homem livre neste trem, e não há nada que possam fazer contra esta liberdade! Eu, nos meus 16 anos, senti esta frase atravessar-me o peito, e aprendi que a liberdade está dentro de cada um de nós. Mesmo em tempos de regime totalitário, vivia a liberdade intrínseca da embriaguez sem vinho da juventude.
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