Sei que nenhum outro profissional me marcou como este. Lembro sempre de um homem magro, grisalho, muito, muito alto – ainda mais para quem nunca passou de 1,62m como eu -, com o olhar mais doce que eu já vi.
Lembro da delicadeza com que pegava minha filha, um bebê recém- nascido, em 1987 – e curvava-se para colocar em uma balança para ver o peso. A balança era um show à parte: cestinha de palha com um travesseirinho, coberta com um lençolzinho macio e delicado.
Minha mãe havia levado a mim e minhas irmãs para consultas com o Dr. Fernando desde bebês. Lembro que minha última consulta com ele foi aos 17 anos, quando disse que queria estudar medicina. Ele se despediu de mim como a uma futura colega – como me senti orgulhosa naquele dia!
Oito anos depois, formada em publicidade (como a vida roda com a gente, não?), voltei àquele micro-consultório na esquina da Avenida Paulista com Rua Brigadeiro Luiz Antônio, num prédio alto e antigo, andar altíssimo que dava até tontura. Levava minha filha recém-nascida.
O Dr. Fernando tinha a consideração extrema de datilografar todas as receitas em uma antiga máquina manual de escrever, pois sabia que letra de médico geralmente é difícil de ler…
Na última vez que levei Mariana para uma consulta, ela tinha perto dos 3 anos; estava frio e ele fechou a janela de vidro para não entrar um vento. A cena que ficou gravada tão fortemente na minha memória foi esta: um senhor de cabelos brancos, muito, muito alto e magro, se curvando todo para auscultar o coração de uma garotinha de calcinha de babadinhos e uma camisetinha regata. Era uma cena digna de Norman Rockwell – como eu queria ter fotografado! E me prometi que na próxima consulta levaria uma máquina fotográfica. Mas a próxima consulta foi ficando pra depois, pra depois, a Mariana cresceu e o pediatra perdeu o sentido.
O Dr. Fernando receitava mamão para prisão de ventre, andar descalço na terra para a formação do arco do pé, massagens para cólicas… Em agosto de 2008, meu pai me ligou para contar que o Dr. Fernando tinha morrido. Meu coração ficou triste de saudades, mas tenho certeza que, nessa hora, ele ganhou o par de asas de anjo mais lindo que tinha no céu!
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