Donas Jusmáne e Slimáne e seus gatinhos

Há poucos anos esteve cá no Brasil – país que ele adora, diga-se de passagem – o roteirista e desenhista de histórias em quadrinhos, Will Eisner. À época, montaram, em sua homenagem, uma maquete em tamanho natural de algumas de suas personagens de "O Edifício", uma de suas melhores criações, penso eu.

Uma breve sinopse: um vetusto edifício é demolido para ceder passo a um enorme arranha-céu. Eis que surgem fantasmas que assombravam o anterior imóvel, ao qual se relacionavam por terem vivido nele. O leitor passeia pelas lindas estórias destes fantasmagóricos moradores. O que nos interessa aqui é esta ideia de que uma edificação guarda as marcas de seu passado e, às vezes, da construção que ali se situava anteriormente. Somente nós, que acompanhamos o processo, sabemos a história (com “h”) de um imóvel aqui em São Paulo. Quero narrar este breve relato, no ensejo que outros leitores conheçam um pouco melhor as histórias da História de nossa cidade.

A Avenida Paulista – "A Mais Paulista das Avenidas", consoante o pregão do cartão postal – foi inaugurada em dezembro de 1898, vindo à luz por concretização do projeto do uruguaio Joaquín Eugenio de Lima (ou, aportuguesadamente, Joaquim Eugênio de Lima). Logo se cobriu de mansões dos barões do café, em uma época em que a cafeicultura era o centro de nossa economia. No entanto, as vias transversais e paralelas também se atapetaram de enormes casas, de abastados não tão endinheirados quanto os vizinhos da Paulista, mas que, muitas vezes, eram autênticas joias arquitetônicas.

À Rua Cubatão, havia uma formosa casa, estilo francês. Quem em frente à mesma passava, não deixava de se estupefazer com três coisas: o jardim, repleto de roseiras (era mais um roseiral urbano do que um jardim); as linhas neoclássicas francesas da casa, em "pierre de taille", cuja tonalidade amarelecida lhe dava um ar senhorial; os gatos. Eram em profusão numérica e de pelagem: tigríneos, brancos, pretos, malhados, rajados, de duas cores, casco-de-tartaruga e cinzas. Mesmo quem não gosta destes felinos domésticos, não deixava de se embevecer vendo-os a se refestelar ao sol vespertino. Quem se detinha por tempo suficiente para ver sua donas ficava ainda mais atônito. Eram duas senhoras filhas de libaneses, que conheciam todos os animais pelos nomes. Quem não sabia da origem das donas logo descobria ao ouvi-las chamando os gatinhos por nomes franceses e árabes, como é o mais usual levantino de seus pais.

Eram Philippe, George, Nuri, Hamza e outros dos quais minha memória já não retém. As duas senhoras eram as irmãs Jusmáne e Slimáne. Ambas viúvas, cujos filhos, já adultos, não assistiam ao mesmo endereço. Todos os que moravam ou tinham sua faina diária às proximidades acompanharam a batalha heroica das duas contra a especulação imobiliária, que custara a São Paulo tantas das outras casas da Avenida Paulista. Uma nódoa vergonhosa que sangra em todos os paulistanos, natos ou por adoção, e em todos os que conseguem ver o dinamismo e a vivacidade de São Paulo. Não queriam, nem poderiam, morar com os filhos, nem se desejavam desfazer de seus amados bichanos.

Um dia, surpreendi-me com a ausência dos gatinhos e com as janelas cerradas o dia todo. Soube que as duas desistiram de tanta luta contra um poder maior do que elas. Se o leitor pretende arriscar o palpite de que seria a especulação imobiliária, já lhe adianto que se equivoca ledamente: a idade. Já não conseguiam mais subir e descer as escadarias, de poucos degraus, mais de função decorativa do que propriamente pragmática, embora igualmente perigoso para duas anciãs. Logo, o funesto cartaz "Demolidora… Materiais usados". A demolição levou semanas: tentaram poupar o máximo possível. Nunca vi tantas pias de mármore de carrara italiano, lustres franceses, papéis de parede de fazer inveja a qualquer decorador. A construção do novo edifício foi rápida.

Espero que os que entrem ao edifício do Ministério Público do Trabalho – 2ª Seção, à Rua Cubatão 322, lembre-se de donas "Duplamente Corpórea" e "Duplamente Pacificadora" (respectivamente, Jusmáne e Slimáne, em árabe) e de seus filhinhos de quatro patas. Devem estar "dando um dedinho de prosa" em árabe com meus avós, ou se balançando em cadeiras de balanço com os anjinhos peludos ronronando em seus colos, lá no Paraíso. E "ai" de quem me disser que animais não vão para o céu.

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