Dona Brá nasceu no dia 17 de dezembro de 1919 com o nome de Brasilina Washington de Almeida e ganhou esse apelido bem cedo. Única filha, entre quatro homens, de uma mineira de Cristina e de um campineiro “quatrocentão”. Ela me disse que esse era o nome de sua avó paterna, uma índia civilizada que veio do Pará. Ela nasceu na Rua Bonita, no Cambuci, que hoje é a Rua Tomas de Lima, mudou-se para Rua Vergueiro; Muniz de Souza; Joaquim Pisa; Mazini; Bueno de Andrade; Oliveira Peixoto e por último para Rua Paulo Orozimbo, onde se casou.<br><br>Em uma dessas mudanças ocorreu o levante paulista, na década de 20, onde teve a casa em que morava bombardeada. Estudou no Externato São José na Rua da Gloria até o equivalente a segunda série do ensino complementar. Como uma mulher que vivia no meio de quatro marmanjos aprendeu a descer as ladeiras da Aclimação dentro de um pneu de caminhão, fazer e empinar pipa, fazer balão em junho, rodar pião na palma da mão e tantas outras molecagens. Não sei se teve uma boneca.<br><br>Foi trabalhar jovem em um laboratório farmacêutico com estrangeiros que, naquela época, tinham o domínio dessa arte e foi onde aprendeu a arte de datilografar, aproveitando, eu acho que o pai dela havia sido farmacêutico prático em outros tempos mais difíceis. Rosto miúdo, pele morena clara e cabelos pretos cacheados, mais ou menos 1,60 de metro e esguia, foi fácil encantar o Ézio em um baile de carnaval, coisa que adorava!… Dançar. <br><br>Ele era filho de imigrantes italianos, um pouco mais alto que ela, pele clara de europeu, cabelos castanhos claros, semi-calvo e com um belo par de olhos azuis, não foi difícil, também, encantá-la. Nasceu em Posse de Ressaca, que é hoje Santo Antonio da Posse perto de Mogi Mirim onde a família se estabeleceu logo que veio de Veneza Giulia. Conheceram-se em São Paulo quando a família toda havia se mudado, estavam cansados do trabalho duro e pesado do interior e distante de onde, em meados de 1930, havia um grande desenvolvimento industrial: São Paulo.<br><br>A Brá é ambidestra. Faz tudo com as duas mãos: escreve (de trás para frente também…) cozinha, faz crochê, tricô, costura, borda até hoje e nunca perdeu o traquejo na maquina de escrever. Só ela conseguia aparafusar com a mão esquerda dentro do armário de parede. Sua habilidade era tanta com a “Remington” que aos 70 e poucos anos me contou um segredo:<br>- “Sempre tive vontade na vida de fazer algo voluntariamente e hoje realizei um sonho: trouxe aqui uma máquina de escrever em Braille que agora vou transcrever livros e revistas para cegos na Fundação Norina Nowill."<br><br>E assim fez por mais de 10 anos até chegar o computador. Nem as próprias cegas que trabalhavam na fundação, como revisoras de texto, acreditavam no que ela fazia com tanta perfeição. Achavam até que ela fosse cega.<br><br>Ela e o Ezio se casaram em 1943, durante a Segunda Guerra, em São Paulo, na igreja Imaculada Conceição localizada na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e foram morar na Mooca junto com os sogros e as cunhadas solteiras na Rua Juvenal Parada e foi lá que tiveram os seus três filhos Ezio, Ricardo e Eduardo.<br><br>Mãe é mãe em qualquer situação e isso ela fez com maestria: tudo que ela aprendeu, quando criança e jovem, ensinou aos filhos: os melhores balões, as melhores jogadas de pião. A vizinhança da Rua dos Trilhos, para onde mudaram alguns anos depois, não podiam conceber a ideia de uma mãe ensinar tudo aquilo para os filhos… E tão bem.<br><br>Dona de um caráter singular manteve sempre que pôde os filhos "na linha" como dizia sempre. Se auto declarava uma teimosa, mas detestava confusão e fofoca de vizinhança, tanto que se trancava dentro de casa para não dar trela a conversa fiada. Mas com as filhas dos vizinhos ainda brincava de amarelinha e queimada.<br><br>Todas iam na casa dela pedir para ela ensinar, sempre, alguma coisa: seja os trabalhos escolares, costurar alguma roupa ou até cozinhar algo para alguma festinha, pois as suas mães não tinham o domínio de cozinha doces, o que a Brá aprendeu com a sua mãe mineira. Mas nenhuma delas se tornou sua nora. Bem que ela queria. Gostava muito e não se importava que os filhos trouxessem colegas e amigos em casa ou para brincar, estudar ou até simplesmente para conhecê-la. E isso a deixava feliz da vida. Nunca reclamou.<br> <br>Os filhos cresceram e foram fazendo os seus caminhos… Infelizmente o Ezio só viu o Ricardo casar, mas não viu nenhum neto. Ele foi embora cedo, em 1973, vitima de uma doença renal irreversível, deixando a Brá aos 54 anos. Eles ainda moravam de aluguel, embora tivessem uma casa em Mairiporã onde iam passar os fins de semana. E foi lá que ela foi morar. Nunca parou com as suas atividades voluntárias, ajudou no clube de mães da Pedreira Cantareira, trabalhou também na igreja de Nossa Senhora do Desterro em Mairiporã e foi até coadjuvante de uma peça de teatro de um grupo de jovens vizinhos. Aquilo para ela foi o máximo! Ela teria sido uma extraordinária professora se ela tivesse se permitido.<br><br>Sim, ela voltou para São Paulo, depois que os outros dois filhos se casaram e no fim dos anos 80 foi morar nos prédios do IAPI da Rua dos Trilhos, esquina com a Rua Tobias Barreto, mas no endereço sempre se dizia Rua Catarina Braida.<br><br>Em um trágico acidente de obra o Ricardo, seu filho que era engenheiro, faleceu em 2002 aos 55 anos deixando a nora Sonia e o filho Renato adolescente. Ela sentiu o baque. Pediu para eu falar com Deus, que a levasse e deixasse seu filho, tamanha foi a sua dor, pois dizia que o Ricardo ainda tinha um grande futuro pela frente e ela por sua vez já estava com o seu caminho trilhado.<br><br>Virou avó de sete netos e espera para este mês a sua primeira bisneta, Isadora. Desde 1992 peço a ela para escrever as suas memórias, pois ela tem muita história para contar… Aproveitar a memória prodigiosa em folhas soltas de papel, uma gravação… Qualquer coisa que São Paulo agradeceria. E ela me fala assim:<br>-"se quiser anote, eu não tenho mais a minha Remington…"<br><br>Ela hoje está com 92 anos de idade, os cabelos negros e enrolados deram lugar aos cabelos branquinhos que cuida com esmero, está lúcida, esperta, mora sozinha, ainda muito falante e faz palavras cruzadas todos os dias para evitar que o Alzheimer a apanhe. Lembra das amigas de juventude com um grande sorriso e sem se lamentar que elas já se foram. Ainda hoje ensina bordados as quartas-feiras, em uma igreja da Rua Juvenal Parada.<br><br>Ter escrito isso é muito pouco por tudo que essa mulher foi e ainda é. Como uma simbólica e simples homenagem à Dona Brá, a senhora Brasilina de Almeida Sertorio, minha mãe.<br><br><br>E-mail: [email protected]