Dona Adarcília

Pessoas especiais, importantes e sensíveis passam pela nossa vida e a memória e o coração as registram de forma amorosa para sempre.
A dona Adarcília era nossa vizinha na Rua Dom Duarte Leopoldo, no Cambuci. Década de 60, tempo bom de se viver. São Paulo naqueles tempos tinha uma atmosfera mais familiar, aconchegante e muito mais macia, menos barulho. No nosso apartamento existia uma porta que separava a sala dos quartos. Á noite a mesma era trancada. Um dia o meu pai falou, de olhos arregalados: "teve uma época de muito roubo em São Paulo e a gente se acostumou a trancar essa porta". Eu me sentia segura com aqueles cuidados e com a porta trancada… E a vida passava mansa naqueles idos na minha São Paulo.
A educação da dona Adarcília, do seu Oswaldo, o esposo e dos filhos era característica. Pequena eu os via com respeito e até com cuidado, pois a minha família falava muito bem daquela.
Eu tinha 5 anos quando o meu pai comprou a primeira geladeira. Eu estava dormindo quando a mesma chegou. Contente, a minha mãe foi me buscar na cama e eu, no colo, esfregando os olhos, sem entender, olhava para a novidade e surpresa com o contentamento da mãe. Eu a achei imensa e cheguei até a ter um pouco de medo daquele eletrodoméstico tão esperado.
A dona Adarcília, sorridente e olhando azul, muito azul, cumprimentou os meus pais pela compra. Ficou contente e, quando chegou a nossa televisão, vinha com os filhos assistir conosco alguns programas. Tempos de televizinhança…
Mas um dia a dona Adarcília me assustou. Tocou a campainha com ar meio aflito. Minha mãe abriu a porta e ela, de olhos grandes, juntou as mãozinhas e exclamou: "dona Célia, mataram o Kennedy"! Foi uma comoção só. Como? Por quê? Essa pergunta o ocidente inteiro fez naquele momento. Tiveram pena da Jacqueline, dos filhos pequenos, comentaram o ocorrido atordoadas. E trataram logo de ligar a televisão. E eu pensava: "quem será esse moço que mexeu tanto com as emoções? O que será que ele fez de tão bom?" Só depois fiquei sabendo do significado da Aliança para o Progresso que o mesmo idealizou para a América Latina, um mecanismo para conter os avanços do pensamento socialista após a Revolução Cubana.
À noite era a hora de esperar o noticiário. Pela madrugada nos chegou imagens do funeral, em branco e preto, com os chuviscos naturais da televisão daquele tempo e tudo acompanhado por profundo pesar. Como era tarde, acho que a dona Adarcília pensou que iria nos incomodar e não foi assistir o jornal, mas, no dia seguinte, a minha mãe fez a ela o relato da tristeza e da dor na alma norte-americana.
Com o tempo a família se mudou para a Vila Mariana. Fomos algumas vezes visitá-los. Era uma casa com muitas plantas e eu me encantava com aquele pequeno jardim. Era um lugar calmo e na casa existiam alguns gatos que passeavam felizes, até parece que eram sorridentes. Em 1967 nos mudamos para a rua Albuquerque Maranhão. Numa tarde de domingo a dona Adarcília foi nos visitar. Eu brincava com algumas amiguinhas de esconde-esconde. Resolvi me esconder no início da vila que cortava a rua e não vi a visitante se aproximar, mas ela chegou bem perto de mim e perguntou baixinho, segurando a minha mão de forma afetuosa: " Verinha, você está se escondendo?" Eu respondi: " Oi, dona Adarcília, eu estou me escondendo sim. Ninguém pode ver a senhora falando comigo, mas pode ir lá em casa que a minha mãe está lá".
E assim foi feito. Com surpresa e satisfação a mesma foi recebida lá em casa, sempre com um cafezinho quente. Café Moka. Até hoje compro esse café quando vou a São Paulo e trago alguns quilos para saborear ao longo do ano.
Quantos anos… Mas aquele olhar azul, muito azul não foi esquecido. Eu nunca vi a dona Adarcília brava, com raiva ou brigando com a família. Eu só a vi gentil meiga e muito, muito bonita. Quando a família se mudou fez muita falta, parece que alguma coisa não muito boa tinha acontecido. Mas, onde estiver que a dona Adarcília continue a ver o mundo da cor do mar, na imensidão da beleza da alma que sei que ela tinha.

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