Esse era o jargão usado por todos na metade do século XX. Era um método para mexer com idiotas que pensavam que estavam abafando e davam cantadas a torto e direita. E nesse bando de idiotas que pensavam que sabiam muito e só depois de um bom tempo é que começaram a perceber que nada sabiam, estava eu, no meio. Quando eu tinha uns 12 anos a dona Iésse, uma vizinha nossa já velha, bastante enrugada, me chamou de cara de macaco. Foi porque ela me mandou na venda e eu reclamei que ela me deu só dez tostões de gorjeta. Fui ao espelho da penteadeira da minha mãe que tinha três partes e que dava para ver frente e rabo, e vi que realmente eu tinha uma cara de macaco. Pensei. Meu, se eu for esperar uma mina me dar bola, tô fodido e mal pago. Então o negócio é ir para cima das peças. E foi assim que eu fiz. Quando eu pensava que tinha o domínio da situação, percebi que gostava muito de uma moça que era irmã de um amigo meu que jogava futebol. Pela primeira vez percebi que era diferente a coisa que pegava mesmo no peito, que dava aquela sensação de sufoco, sem ter alguém apertando a garganta. Depois de me declarar, ouvi dela que seria necessário uns dias para pensar. Já éramos amigos, e era normal naquele tempo 1959, que se tinha que esperar o sim dela, dias depois. E a seguir, obtendo sucesso, chegar nas barbas do pai para pedi-la oficialmente em namoro. Aí teria que ter saco, para ouvir um rosário de perguntas. Se tinha uma profissão, quanto ganhava, quem eram seus familiares e onde moravam, se eram católicos e muitas outras perguntas. Mas o que vigorava mesmo era ter uma profissão. Se fosse torneiro mecânico então a filha já estava oficialmente aceita como namorada e, com muita satisfação, sem contar as inúmeras puxadas de saco, do futuro sogro.
Mas enquanto a resposta da Shirley não vinha – que estava programada para o domingo seguinte, quando da nossa estada na quermesse da igreja de Santa Teresa do Itaim, já dentro da igreja em construção. Quermesse esta que tinha o escopo de arrecadar dinheiro para a própria construção. Eis que no meio da semana o esperto aqui, estava junto com um amigo dando umas bandas pela avenida Santo Amaro em frente a Endoquimica, que ficava na esquina da rua Afonso Brás, duas minas de alto respeito por suas formas esculturais e de fisionomia que fazia os olhos da gente brilhar, passavam ao largo da avenida. Meu amigo Castro um português muito do abusado disse: – Mario você que diz que é o tal das garotas bonitas, vai naquelas duas e bate um papo, ganhando vai tomar uma cerveja paga por mim. – Xará, já estou vendo essa cervejota, em cima do balcão com um dedo de colarinho se esvaindo copo abaixo. E lá foi o chamado Don Juan da Vila Olímpia.
– Oi, e aí, uma boa companhia faria bem a vocês, sabia?
– Sei, e quem de nós duas tem sua preferência?
– Bem, deixa eu ver… Uma bela olhada de cima para baixo nas duas e, lá foi à resposta:
– Vou escolher você. Como é seu nome?
– Me chamo Vera, estou deveras orgulhosa por ter sido a escolhida… Mas fiquei sabendo que você se declarou no domingo e que quer namorar com minha colega de serviço, a Shirley. E aí, como vai ficar?
Na verdade, o que ficou foi uma puta confusão na minha cabeça. Saí do papinho com o rabo entre as pernas, só pensando no que ia falar para a Shirley, no domingo de festas e guardas. E com o chegar do dia e da hora que para mim, se demorasse 15 dias seria bom para a poeira assentar. Mas a verdade, ela é nua e crua. Tinha que ser vista de qualquer forma. Segundo alguns amigos que estavam “por dentro da mortadela”, eu nem deveria chegar perto dela, por ser uma moça irascível, que dependendo do papo, não ria nem para o dentista. Mas eu sempre fui do tipo que pagava para ver, e no domingo às seis e meia quando saíamos do pátio da paróquia do Divino Salvador, rua casa do Ator, na Vila Olímpia e íamos a pé até o Itaim pegando a Clodomiro Amazonas de cabo a rabo… No caminho já coloquei os papéis na mesa. Simbolicamente, pois andávamos pela via.
– Bem, o que tem você a me dizer daquela conversa que tivemos domingo passado Shirley?
– Bem, sabe Mario, eu estive pensado bem, e achei por bem não namorar, pois sou muito nova ainda e não pretendo me comprometer com ninguém por uns dois anos.
Na verdade ela foi muito comedida, e bastante educada. Mas deixava transparecer uma ponta de raiva, que suas palavras bem articuladas davam a entender. Mais tarde fiquei sabendo que sua irmã mais velha, a Zezé, que me adorava e que era a chamada irmã mais velha de toda a turma, aconselhou-a a falar com prudência, pois eu era um moleque, em termos de idade, 19 anos.
Não me conformava com o acontecido. Tentei por várias vezes convencê-la, e nada. Ela sempre com educação saía fora. Um belo dia, depois de tentar um papo com ela sem êxito, passei no bar do Fernando, rua das Fiandeiras esquina com a Clodomiro, e enchi a cara. E falava um pouco alto, para o empregado do bar o Palmeirense, Soares. – Meu sabe quem eu sou? Eu sou um grandessíssimo filho da Puta. Qua ,qua, qua, qua!
– Vai pra casa garoto, e cuidado para não cair da bicicleta, disse ele. Na verdade eu era um cão em cima de uma magrela, e não caia mesmo estando num foguetasso. No dia seguinte já sóbrio, comecei a pensar no ocorrido. Aí me veio à cabeça.
– Porra, com 19 anos, ainda num emprego incipiente, ganhando um salário que mal dava para se divertir, jogando bola, bilhar e umas idas a zona. Para que pensar em casar? Sai dessa, palhaço, me disse, olhando-me no espelho.
Aí foi só zoeira. Uma noite batendo um papetasso com uma crioula no campo do Esplanada do Jardim Paulista, Rua Manoel da Nóbrega, atrás do ginásio do Ibirapuera, eis que surge mais uma vez o Castro, aquele português. Lembram-se? Com as duas mãos a cintura mais parecendo um açucareiro, fala em alto e bom som: Você não tem vergonha na cara? Um cara bonito, tentando comer uma negra, feia e velha? Confesso que na minha molecagem não agüentei. Quase sentei no chão para rir. Ela coitada não sabia o que falar. Aí matou meu negócio. Era uma sexta feira dia ideal para aquele colóquio, segundo os supersticiosos. Daí para frente era um festival de cantadas. Sempre naquele estilo de chegar junto, mesmo a mulher não dando bola. Os rapazes sempre tiveram preferência por mulheres mais velhas e eu não ficava atrás. O que vinha pegava, mesmo sendo casada. O melhor lugar para pegar mulher como se dizia na época (paquerar) era no centro da cidade no quadrilátero São João, Avenida Ipiranga, Barão de Itapetininga e Anhangabaú. Gostava quando tinha garoa. Dava cabeçada nos guarda chuvas das moças, as bonitas, é lógico. Fingia que tinha ferido os olhos. E com as duas mão ficava no rosto. O desespero delas era muito interessante, querendo me socorrer, era praticamente abraçado por elas. Era uma delícia, principalmente quando uma ou outra tinha seios fartos. Num domingo já às 22 horas, quando as cortinas do domingo estavam por fechar, dou de cara com uma mulher que não dava para ignorar. Fui pra cima e estava me dando muito bem. Uma bela mulher de uma educação e meiguice a toda prova. Quando paramos em frente ao prédio onde começa a avenida Nove de Julho, ela disse que ali morava. Mais um papinho para marcar um encontro. Foi quando veio um velho alto careca e gordo. Puxou-a pelo braço chamando-a de vagabunda, mandou eu esperar ali, e subiu com ela. Bem eu bem que podia ir embora. Mas sempre pago para ver e fiquei esperando. Não demorou muito e lá veio ela meio descabelada chorando muito. Não sabia nem o que falar. – O que foi que aconteceu? Ela, andando de volta para a direção da avenida São João, foi contando que ele dava moradia a ela que pagava um aluguel e ainda tinha uma relação com ele. Para onde você vai agora moça? Pode ficar sossegado que eu me viro disse ela. Mas eu me senti culpado por toda aquela situação. Aí soube que ela era garçonete de uma lanchonete perto da boca do lixo. Disse a ela que na segunda feira eu ia lá falar com ela.
Fui para casa e comecei a pensar no que podia fazer para amenizar seu sofrimento.
Na segunda feira comprei um Diário Popular que era um jornal de pequenos anúncios e era tido como o melhor para se achar empregos. Desfolhando as folhas deparei com um anuncio. PRECISA DE EMPREGADA DOMÉSTICA. Para dormir no emprego. Falar com dona Laura. Avenida Indianópolis perto do Clube Sírio. Pensei: puta empregão, melhor do que ficar num balcão servindo bêbados e levando cantadas o dia inteiro. Peguei o telefone e liguei. – Dona Laura? – Sim ela! É o seguinte, estou de posse de um anuncio do diário popular dizendo que precisa de uma empregada. Já arrumou? – Não arrumei não. Então vou apresentar a senhora minha prima que está chegando do interior, prendada, bem afeiçoada, branca, 27 anos.
– Tudo bem, Mario, eu espero vocês hoje à noite
Naquela segunda à noite fui lá na lanchonete. Era o chamado Sujinho da boca do lixo. Ela estava muito bonita apesar daquele avental cor de rosa. Um monte de sujeitos olhando pra ela com a mão no bolso. Pedi um refrigerante, e falei pra ela baixinho que tinha uma boa coisa. Aí, todos estavam de olho em mim. Pensei acho que vou tomar um puta cassete nessa joça. Aquele guaraná tomado em conta gota já estava bem chocho. Quando ela saiu eu disse: Olha, acho que te arrumei um emprego. Gostaria de trabalhar de empregada doméstica? É bem melhor do que esse empreguinho de merda que tem, e com um monte de marmanjos em cima de ti. Vai ganhar um salário quem sabe mínimo, mas terá comida, vai dormir no emprego, e o que ganhar entra limpinho no seu bolso.
Pegamos um ônibus já era 21 horas. Chegamos por perto de umas 22 horas, Era uma mansão. Tocamos a campainha e veio uma menina muito linda nos atender. Mamãe já está deitada, mas mandou ela subir ao quarto para conversar. Fiquei naquela enorme sala lendo uma A Gazeta esportiva sozinho naquele silêncio. Quando de repente vem o marido de dona Laura e mais uns três filhos. Todos sorridentes falantes me viram na sala sozinho, me cumprimentam, e nem perguntaram, quem eu era e o que eu estava fazendo ali. Subiram todos e continuei ali sozinho. Logo em seguida Mara desce toda sorridente. O que já era um bom sinal. Fomos saindo com a menina nos levando até o portão, deu um beijo em Mara, e disse até amanhã.
O emprego estava arrumado.
– Mario que mulher, linda, educada. Já mandou eu começar amanhã.
Pronto minha missão estava cumprida voltamos para o centro e Mara ia dormir mais um dia naquele hoteleco da São João perto do Ponto Chic, que a gente sempre levava piranhas para trocar umas figurinhas. Meses depois eu trabalhava na Don Luis de Bragança Vila Mariana e encontrei Mara.
– E aí Mara, como esta no emprego? Estou firme, me tratam como se fosse da família. Eu sirvo a mesa e o patrão faz questão de que também me sente e almoce e jante com ele. Sabe, até na missa vou com dona Laura todos os domingos e comungo se você quer saber.
Uma lágrima de emoção saía de seus olhos. Mais de um ano depois tornei a encontrá-la no Jardim Paulista. Aí não deu para segurar chegamos juntos num colóquio. Quando já estava namorando firme para casar, saído do cine Olido, dei de cara com ela. Estava linda, num pano irresistível. De fina sem que minha ex-namorada, hoje minha esposa, desconfiasse, dei uma olhada pra traz, e naquele momento ela também. Só faltava ela chamar-se Anita…
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