Doces memórias II

Segunda-feira brava; depois de um cansativo dia de trabalho, estou a caminho de encontrar minha amada e, com ela, voltar para nossa casinha, na santa tranquilidade.<br><br>Desembarco do metrô na estação Jabaquara e vou até o terminal de ônibus para embarcar rumo a Ferrazópolis.<br><br>A saída do metrô, onde desemboca a escada rolante, está invariavelmente obstruída por vendedores ambulantes, puxadores de passageiros para os lotações da baixada santista e, lógico, transeuntes que seguem seus caminhos.<br><br>Naquele dia, ao sair da escada rolante, deparei-me com um ambulante e, ao perceber o produto que oferecia, de imediato, um passado muito remoto se fez presente com suas cores, seus cheiros e sabores.<br><br>Balas era o produto que ele oferecia. Eram balas douradas, embrulhadinhas em papel celofane uma a uma, como apregoava um antigo reclame do dropes Dulcora.<br><br>A memória foi buscar uma esquina em especial, Praça da Sé com Rua Direita, ali uma banquinha, oferecia essas delicias de coco e ovos, cobertas com uma calda caramelada de açúcar. Tentação para os olhos gulosos de uma criança.<br><br>Minha mãe, quando estava desprevenida de recursos financeiros, evitava passar comigo por ali, caminhava até a Rua Benjamim Constant ou Rua José Bonifácio e, assim, não via meus suplicantes olhares a rogar um saquinho daquelas balas.<br><br>O pior é que as tais balinhas multiplicaram seus pontos de venda e atrapalharam minhas saídas com mamãe.<br><br>Pois, muito bem, aquelas delícias de antigamente de repente voltaram a povoar os meus sentidos. Hesitei um pouco, mas logo estava parado à frente do vendedor.<br><br>“Quanto é?”, perguntei; e ele, de pronto respondeu: “São sete por um real ou as grande por um real cada uma”.<br><br>Sequioso, comprei sete das pequenas e me preparei para degustá-las.<br><br>Desembalei a primeira já reparando que o tamanho era minúsculo, bem menor do que a minha memória havia registrado. O paladar era quase o mesmo, embora, por causa da pequenez da bala, foi preciso degustar todas de uma só vez para acentuar o gosto.<br><br>Pronto, memória atendida, diabetes alterado, dedos lambuzados, lá fui eu ao encontro da Soninha que, em virtude da minha gula, ficou sem uma única balinha.<br><br>Como não sou bobo, para evitar constrangimentos, nada contei a ela.<br><br>E-mail: [email protected]