Doce lembrança do subúrbio

No meio da discussão, minha mãe intervinha e sugeria que fôssemos sentar na frente da casa para esperar Tia Maria que talvez nos trouxesse alguma coisa; a briga acabava e íamos quatro dos oito irmãos (sendo que ainda nasceu mais uma) sentar no degrau de entrada da porta que se abria diretamente para a rua na esquina da Antônio Lobo com a Itaparica (depois Matusalém Matoso), no bairro da Penha.
Tia Maria era a irmã mais velha de minha mãe, que vinha duas vezes por semana à nossa casa, para ajudar na lavagem da roupa da numerosa família; morava no Jardim Penha, na Estrada de São Miguel Paulista e de lá nos trazia, além de histórias da "curva da morte", nêsperas, limão-cravo (que comíamos com sal) ou chouriço caseiro (do porco criado em sua casa) e que era refogado com cebola.
E de repente, lá surgia ela, na esquina da Rua Padre João: figura miúda, os longos e negros cabelos presos num coque na nuca, as roupas austeras e um andar cuidadoso, "tateando" o chão com os pés, tentando compensar a visão que a catarata insistia em diminuir; nas mãos a sacola de pano que, pelo volume, adivinhávamos guardar alguma coisa.
Sem medo ou cuidado, atravessávamos correndo a rua de terra onde a presença de carros era um espetáculo à parte e íamos ao encontro dela, fazendo algazarra e muito ansiosos com a surpresa que nos aguardava; era um tempo em que a felicidade era usufruída por meio de coisas muito simples, num modo de ser e num subúrbio de uma calma provinciana mesmo, numa São Paulo antiga, dos anos cinqüenta, e que é hoje doce lembrança de quem viu esta cidade explodir em negócios, gente, problemas e oportunidades.

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