O dilúvio da Rua do Gasômetro – 1
Nestes dias que antecedem o outono e inverno, temos a presença do verão, pra justificar o axioma de que, nesta bendita terra de Sta. Cruz, faz um senegal calor, quatro meses por ano; faz calor, três meses; menos calor, temperado, dois meses; quando, num dia só, as quatro estações, dois meses e um mês só, de frio. E olha lá…
Estamos, agora, início de abril, passando pelo "veranico de outono" ("São as águas de março fechando o verão…") e nestes dias nos vêm recordações alegres, tristes, melancólicas e indesejáveis, às vezes, por trazerem a nossa presença, como uma constante em participar de nossos dias prazerosos, justificando a receita da boa existência de todos nós em que, alguns ingredientes, separados, têm sabor amargo como fel, outros, toleráveis e outros, ainda, doces como o mel. No conjunto, um buquê apreciável e digno do melhor gourmet.
São passados quarenta anos…
Estamos em 1966, moro na Rua do Gasômetro, 178, 3º andar, há oito anos, a sacada com porta-janela e a janela do único dormitório, pro lado da rua, absorvendo, assimilando, degustando a maior tortura que uma família pode suportar: o barulho ensurdecedor do trânsito da Rua do Gasômetro. Os ruídos dos automóveis, ou melhor, as explosões dos escapamentos, têm uma sonoridade que invejam os ingleses, que são os melhores do mundo na distribuição tridimensional do som. Até esta época, o Hi-Fi, que é o melhor que se conhece em matéria de sonoridade, perde de longe para o fantástico estrondo da Rua do Gasômetro.
Sem querer fantasiar muito, e a Myrtes está aqui, que não me deixa mentir, quando um ônibus para pra descer ou subir passageiros, ouço o movimento do motorista acionando o ar comprimido, a porta abre e fecha, eu detecto, de madrugada, se é "Mercedes", com motor dentro, da "Sto Antônio do Pari", verde ou interurbano, com motor de fora, um "Scania". E, se por acaso o cobrador deixa cair uma moeda no solo do bus, sei o valor da moeda pelo som, digo a Myrtes, que também está acordada: "essa é de um cruzeiro", uma verdadeira maravilha que só viríamos a conhecer décadas depois, com o Sound-Road, nos filmes "Panavision" ou qualquer outro nome.
Com três filhos pequenos e esposa, atravesso essa fase com muito trabalho e ajuda imprescindível da Myrtes, minha querida esposa.
Nesse ano tenho momentos de paz com relação ao trânsito, mas não do jeito que eu gostaria e sim com outro problema: a maior enchente que o Braz já teve, a Rua do Gasômetro fica literalmente submersa. Nesse domingo, voltando de um passeio que fizemos a um seminário, em São Roque, voltamos num micro, dirigido por não menos que o famoso ex-cantor, agora num ostracismo total, Tonio Tonini ("Mama", "Piscatore Puzzileco" etc., alguém lembra?). O Tonini não quis descer a Rangel Pestana, disse que o "micro" não era submarino e o único meio de chegar até o Braz é o bonde. Disse a ele que poderíamos morrer eletrocutados. Precisamos descer na Praça da Sé, seguir de bonde até a parada em frente à Rua Caetano Pinto e seguir pela Monsenhor Anacleto até a Rua do Gasômetro e meu apartamento.
Isso tudo com as crianças, minha mãe, minha tia, meu irmão Santo (já falecido), que cai num bueiro aberto e quase se afoga, sua esposa Neide e filhos, dentro d'água que vai até o joelho, todos pro meu apartamento. Moram na Rua do Lucas e não têm condições de chegar até o prédio. Chegamos no edifício que moro, não tem elevador, minha mãe e minha tia, já idosas, têm que subir três andares. Lá chegando, todos ensopados, sem luz, sem gás (o meu era de rua; também pudera, morando ao lado do gasômetro, com toda aquela fuligem, dia e noite… ia comprar bujão!) e o principal, com toda aquela enchente, SEM ÁGUA. O reservatório, que fica no mesmo nível da rua, invadido pelas águas da enchente, está sem condições de consumo.
A Myrtes, que não está bem, desde o nascimento da Maria, eu, que começo no Matarazzo como vendedor, deixo a prancheta de desenho pra tentar ganhar mais.
Na sacada, eu e a Myrtes, olhando a passageira réplica dos canais de Veneza, decidimos que pra criar os quatro filhos em condições melhores, temos que mudar, pedimos ao nosso Pai que desse um jeito, nossa parte já fizemos, a cota de renúncias e sacrifícios estava esgotada, pus as cartas na mesa e dei o ultimato, ou ajuda ou vou partir pruma "franchaise", abrir uma igreja, por conta própria. Não deu outra…
No ano seguinte começo a pagar minha casa pelo plano do BNH.
Essa foi a noite mais tranquila e sossegada que passo, mas nessa mesma noite, o trauma não me deixa, às vezes acordo pensando ouvir um apito de navio, imaginando os ônibus sendo substituídos por barcos…
Depois de três anos, em fevereiro de 1969, com quatro filhos, mudo pro Parque Continental, trazendo do Braz somente as boas recordações e a semente pro nascimento da minha quinta e querida filha, Mylene, nove meses depois.
Do prédio, ainda existente, tenho mais histórias…
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