Dias mágicos de Carnaval…

Antigamente, ponha antigamente nisto, havia o Carnaval nas ruas e nos clubes!

Lembro-me bem… Era criança ainda, devia ter sete ou oito anos, morava um casal de irmãos na minha rua (a irmã tinha o apelido de Dona Miloca e o irmão Seu Miloco – nós, as crianças , o chamávamos assim). Ele era a nossa paixão! Um senhor "muito velho", devia ter uns 50 anos, gordo, baixo, barrigudo e que nós adorávamos.

Quando se aproximava o Carnaval ele nos chamava e, lá no seu jardim, podíamos escolher confete, serpentina, um vidro de lança-perfume ou um frasco dourado do mesmo produto e um recipiente com um líquido vermelho que podíamos atirar nas roupas das pessoas, aparentemente manchando a roupa e quando secava, parecia que havíamos atirado água (não ficava marca nenhuma). Acho que se chamava "sangue de diabo".

Nossa festa, então, começava uma semana antes. Naquela época as férias terminavam no dia primeiro de março. Tínhamos, então, três meses de férias para brincar de roda, esconde-esconde, amarelinha, tamborete, queimada, chutar bola com os meninos, andar de bicicleta, fazer pic-nics no Parque D. Pedro II (sem nossos pais saberem) e, na última semana que antecedia o Carnaval, nos transformávamos em mocinhas-anãs. Depois que tomávamos banho não nos sujávamos mais… Jantávamos e íamos passear na Av. Rangel Pestana onde havia o famoso "footting" em que moços e moças paqueravam. “Ah”! Fazíamos uma "vaquinha" e comprávamos "batom" e todas usávamos, sentindo-nos moças e andando como tais!

Nosso objetivo não era paquerar ou namorar. Queríamos, acertar lança-perfume nos olhos das nossas inimigas, jogar confete na boca delas quando gritassem e atirar o Sangue de Diabo na roupa "novinha" delas. Isso geralmente acontecia na entrada "bem grande" do cine Piratininga, onde tinha umas colunas imensas – com um diâmetro enorme, onde podíamos nos esconder. Além disso, o chão era escorregadio e deslizávamos como se estivéssemos de patins. Era um Deus nos acuda para "pais e filhas", devido às diabinhas que éramos nós.

Éramos destemidas porque sabíamos que o Sr. Miloco estava por lá e, quanto mais bagunçássemos, mais ganharíamos outra leva de produtos carnavalescos. O medo que meus pais soubessem o que eu "aprontava" fazia com que eu fosse muito rápida e as pessoas mal notavam minha presença. Só uma vez meu pai ficou sabendo e eu fiquei uma semana de castigo… “Ah”! Como eu chorei!

Nos dias de Carnaval pegávamos o "bonde andando". É esse mesmo o sentido: púnhamos calça comprida, pegávamos o bonde quando ele virava na esquina da Vasco da Gama para a Av. Rangel Pestana, íamos fugindo do cobrador (porque não tínhamos dinheiro para pagá-lo). Éramos tantas, se ele se confundia e já não sabia quem havia pagado ou não!

Quando chegava a noite, já nos dias de carnaval, ficávamos na beirada da calçada para jogarmos lança-perfume e Sangue de Diabo no pessoal que participava dos corsos!

Pena que isso durou até eu fazer 11 ou 12 anos… Eu já estava tão alta que parecia a irmã mais velha das minhas amigas! E olha que tínhamos a mesma idade!

Agora é que eu estou pensando… Não lembro que havia chuva nas férias! Ela era todinha constituída por dias felizes, ensolarados, céu azul e noites estreladas!

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