Em 1969 deixei o Brás, bairro em que vivi meus primeiros 37 anos de vida e onde tive as mais gratas e emocionantes etapas de minha existência, desde meu nascimento, passando por minha infância, juventude, adolescência e maturidade. Casado desde 1957, com 4 filhos, saí da barulhenta Rua do Gasômetro e um ano depois nasceu minha quinta filha. Os ares do novo bairro propiciaram a formação do quinteto, que tem sempre na letra inicial dos nomes o “M”: Mauricio, Moacyr, Maria, Marcelo e Mylene. Modesto e Myrtes (eu e minha esposa).
O novo bairro, Parque Continental, foi formado num sítio pertencente ao antigo Frigorífico Wilson, onde havia rebanhos de gado, na engorda, preparados para o abate. A área toda fica localizada, a maior parte, no município de São Paulo, separado por um córrego, divide com o município de Osasco a parte menor. Pelo antigo BNH, financiei meu sobradinho que, 5 anos depois, vendi para comprar uma casa maior, dentro do próprio Parque, onde estou até hoje.
De início, as dificuldades inerentes a um habitante de bairro localizado a 2 ou 3 quilômetros do centro, com todas as mordomias, passando, de repente a morar num lugar que, pra se comprar pão e leite tinha que atravessar a Avenida Autonomista e, em Osasco, toda a manutenção que um lar exige. Louve-se a Myrtes, que escolheu o lugar e a casa, com muita alegria e felicidade por ter se livrado do pequeno apartamento da Rua do Gasômetro (ela era do Cambuci). O Brás já estava perdendo seus ares provincianos depois da famosa enchente de 1968, enfrentou com galhardia e muito amor a nova situação. Concordamos em ficar na parte mais alta do Parque (fomos os primeiros moradores) porque, traumatizados com a enchente da Rua do Gasômetro, temíamos nova avalanche, que nunca aconteceu e, por um ou dois anos, ficamos quase sem água, pois estando na parte mais alta do Parque, seus construtores não calcularam que, com a vinda de novos moradores, a população parqueana aumentou tanto que uma gigantesca cisterna improvisada pra captar água do reservatório e seu bombeamento, na distribuição, se tornaram insuficientes.
Eu, vendedor de embalagens, com meu fusquinha, saía de manhã e só voltava no fim do dia, as vezes, a noite. A Myrtes, com nossos 5 filhos, num sobradinho de dois dormitórios, sala, cozinha, galhardamente e com muita satisfação e amor enfrentava a nova situação. O mais velho, Mauricio, tinha 11 anos, a Mylene, a mais nova, nasceu nesse mesmo ano, 1969.
Estes anos todos foram os melhores de nossa vida familiar, sobretudo a repentina mudança de ares, mas, sem nunca esquecer o velho Braz onde as raízes, fortes por demais, agarram-se às memórias de qualquer mortal por espelhar o encanto que é a juventude, tão bela, gratificante, emocionante e saudável, acompanhando seu detentor pro resto de sua vida. Já disse alguém que a juventude é tão preciosa que não deveria ser confiada a pessoas tão jovens, e eu emendo com a certeza de que, se fosse confiada a alguém com muita experiência de vida, ela desapareceria como por encanto.
Logo nos primeiros meses, morando numa quase viela, rua estreita e sem saída, em que os carros são obrigados a estacionar com duas rodas sobre a calçada pra dar espaço a outros vizinhos. Casas bem valorizadas, agora, pelo simples fato de não ter saída. Fui logo contatar-me com os novos vizinhos que vinham chegando, coincidindo com as entregas das chaves. Todos são novos vizinhos de todos e como nos primeiros contatos, todos são virtuosos, quase sem defeitos, pra depois de um ou dois anos, se conhecendo melhor, as virtudes serem amenizadas, dando lugar a pessoas normais, isto é, com a dualidade de caráter mais antiga do que andar pra frente. Intimidade é “fogo”, mas isso não interessa, o corolário da nossa existência exige esse tempero, senão…
Fazendo o “meio de campo” das relações vicinais, e sequioso de um bom futebol, pois havia perdido o melhor espaço do Parque D. Pedro II, que nessa época virou um canteiro de obras da construção do metrô, fui arregimentando os que gostavam de futebol, o que não foi difícil, e já nos primeiros domingos, de manhã, formado por “jovens” de meia idade, demos início ao “racha”, que existe até hoje. Concorridíssimo, outros moradores chegam até hoje, foi crescendo, obrigando a realizarmos duas partidas na mesma manhã.
Com o avanço populacional rápido e grande, os problemas relativos à compra de casas pelo antigo BNH foram aflorando, daí uma entidade representativa se fez necessário. Falta de iluminação pública, escola, posto de saúde e o comércio varejista que enseja a alguns, oportunidades para instalações de uma pequena “vendinha” em sua própria casa, atendendo e abastecendo os moradores nos insumos básicos.
Aí um outro desejo da maioria, de solução a médio prazo, que se fez necessário: uma igreja, improvisada ou não, e um padre. Pra se assistir a uma missa tínhamos que recorrer a uma paróquia da Vila Yara, em Osasco, próxima da Cidade de Deus, do Bradesco ou no Jaguaré que não é muito longe, pra quem tem carro, mas, a pé, principalmente para os idosos, era muito dificultoso. Primeiro arrumamos um padre, Giusepe Narduolo, que se acomodou numa das casas cedidas pela Continental, onde residia e rezava, todos os domingos, duas missas, atenuando provisoriamente, o anseio dos parqueanos católicos. Nessa altura, com outros dez moradores, fundamos a SARPAC, Sociedade Amigos do Residencial Parque Continental, ainda em 1969 e que existe até hoje. Nessa época, as sociedades amigos de bairros tinham força política junto aos detentores do poder, conseguindo, assim, várias reivindicações que a Continental deixava de cumprir. Também tinham os entraves da época. Como um bom número de moradores eram (e ainda são) professores da USP, por causa de sua proximidade, para qualquer reivindicação oriunda de nosso meio a Continental recorria aos poderes públicos, em plena revolução, acusando-nos de movimento subversivo. Eu tinha, como vizinhos, dois professores da USP, de física nuclear, Yogiro e Kazuo, que faziam parte da diretoria e só o Kazuo jogava futebol conosco, o Yogiro tocava violino.
Uma de nossas maiores expectativas era o clube. Depois de várias tentativas da sociedade, eles, a Continental, grupo formado no Rio de Janeiro por próceres militares e seus parentes, na nababesca edificação construída no Rio, monumento vivo da malversação do dinheiro público, construiu o clube, que constava na lista de itens atrativos na compra da casa. É bem verdade que era um meio aparentemente econômico pra se comprar uma casa (na ocasião comprar uma casa era pra poucos), mas as correções trimestrais se mostraram pouco eficientes. Dentro dos cálculos dos funcionários da Continental, a casa financiada, depois de se ter pago mais da metade de seu preço em 7 ou 8 anos, tinha como saldo valor maior do que seu preço inicial. Loucura total.
A SARPAC conseguiu vencer todos os obstáculos trazendo água abundante, iluminação pública, asfalto em todas as ruas, a construção da Escola Arquiticlínio dos Santos, o consultório do doutor José Rosseti, a clínica do doutor Percy Arantes Salviano, pediatra que atendeu meus filhos e que hoje ainda atende os filhos de meus filhos, padaria, super-mercado, construção da igreja e com o despejo do “nosso campo de futebol”, demos lugar à construção do Shopping Continental.
Nestes quase 40 anos na formação de um bairro, louvo o valor, a determinação e a coragem de enfrentar os grandes problemas que exigem lucidez, firmeza e muito, muito amor, na criação dos cinco filhos, transferindo a todos a enorme felicidade que seu coração irradia. Homenagem a minha mulher, Myrtes.
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