Na década de 1960, morávamos os quatro em um pequeno apartamento situado na Rua Santa Isabel, que tem o seu início no portão principal da Santa Casa de Misericórdia e termina na Rua do Arouche, passando embaixo do Elevado Costa e Silva, o Minhocão. O nosso prédio ficava bem na esquina, na entrada da Santa Casa.
Arnaldo, palmeirense roxo, amigo dos tempos de ginásio em São Carlos, nossa terra; Vicente, também “sãocarlense”, fazia o curso de Direito nas Arcadas do Largo de São Francisco, estudante aplicado, sempre na dele, se formou advogado; Guilherme, da cidade de Campos RJ, estudava jornalismo na Cásper Libero, grande cara, trabalhou no Jornal do Brasil e em outros jornais; e eu, que estudava para prestar vestibular na GV. Era o que se chama hoje de república de estudantes.
Sob a marquise do nosso prédio, que como eu disse antes, ficava bem em frente à Santa Casa, havia também uma república, só que não era uma república de estudantes, eram moradores de rua que formavam uma comunidade que tinha até alguma estrutura. O líder era um cara simpático, que apelidamos de “Delegado”. Esse cara mantinha a comunidade sob algumas regras, e eram com ele os nossos contatos, quando fazíamos eventuais doações de roupas, comida, e às vezes, até algum dinheirinho.
Tínhamos um amigo que morava em um prédio perto da Praça da República, na Av. Ipiranga, e que estava sempre conosco. Chamava-se Adelmo e também estudava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Adelmo era muito medroso na época. Quando ficava um pouco mais tarde, tínhamos que levá-lo para casa, senão ele dormia no chão da cozinha do nosso apartamento. Formado em direito, foi um excelente aluno, morreu em confronto com bandidos, como um dos mais corajosos delegados de Polícia da região de São Carlos.
Coisas da nossa juventude na cidade de São Paulo.
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