De posse e de posses

Ouço, no rádio, os discursos de transmissão de posse dos prefeitos, o que sai e o que entra. Passei da idade, politicamente falando, para me importar com partidos e seus programas. Sou ficcionista, todos sabem, de contos e crônicas. Por isso mesmo, os programas dos partidos políticos me parecem mais textos de ficção, quando confrontados com nossa realidade social, econômica ou política, do que a apresentação básica de seus objetivos. Esquerda? Direita? Centro? Há tempos que não os vejo. Minha culpa: teimo em permanecer no tempo em que herói era o "mocinho", o bandido permanecia vilão, do começo ao fim da história. O bem vencia, já o mal terminava algemado para sempre (quem quiser pode trocar por "bom" e "mau"). Volto ao meu rádio, é mais prudente, não quero navegar em águas tortuosas. Essas águas são propensas ao surgimento de mocinhos e bandidos, e eu não sou nem um nem outro. Sou um espectador…

Meu rádio contou que o prefeito da nossa cidade de São Paulo (o que saí) anuncia um "impasse" (sic) na administração da dívida paulistana. O tamanho da encrenca, segundo minhas pesquisas em órgãos do governo e outros também de fé, bate com a informação que o, agora, “ex-alcaide” nos presta: mais de 70 bilhões de reais, ou seja, duas vezes o orçamento da cidade de São Paulo. Muito dessa dinheirama toda (a maior parte) é dívida com o Governo Federal. Saio do macro e vou para o micro: imaginemos a administração financeira da nossa família, onde a renda anual de todos os membros, somada, não atingiria a metade do total da dívida. Dois anos sem comer, pagar contas, aluguel, etc… só para quitar dívidas. É assim com a cidade… Gozado, mas nem tanto, é que durante a campanha política ninguém falou do "impasse".

Ouvido o "ex", ouço o "atual": confirma o discurso do seu antecessor e diz que vai renegociar a dívida. Claro que vai! É do mesmo partido da presidente (atenção revisor: não mude para presidenta)! O fato é que todos (todos mesmo) municípios do país encontram-se na mesma situação, o que for feito para São Paulo terá que ser feito para todos os outros municípios. Quero ver! Além dos antecessores, oito anos de Fernando Henrique Cardoso, oito anos de Lula e dois de Dilma e ninguém conseguiu renegociar dívida alguma de nenhum município. Não se conseguiu sequer discutir as reformas fiscais, políticas, previdenciárias e tantas outras. A sanha arrecadadora e centralizadora do governo federal não permite o crescimento e desenvolvimento dos municípios. Será que nenhum outro mandatário paulistano teve a ideia elementar de "renegociar a dívida"? Qual um cavalo cansado estamos atrelados a uma carroça gigantesca…

O discurso de posse do "atual" também fornece um dado importante. Diz ele que "um em cada oito reais arrecadados pelo Brasil saem do município de São Paulo". É fato. Recorro aos índices oficiais de 2011, já que não temos os de 2012 (o que não muda nada).

Deixo meu radinho de lado e parto para uma pesquisa mais abrangente em sites oficias, como IBGE e outros. O orçamento da cidade de São Paulo para 2011 (impostos municipais, repasses federal e estadual e outras receitas menores) foi de 35,6 bilhões de reais. O PIB (Produto Interno Bruto) do nosso município foi de (pasmem!) 450 bilhões de reais. O PIB brasileiro foi de 4.143 trilhões.

Arredondando a verdade do prefeito entrante: um em cada oito reais do PIB brasileiro sai da nossa cidade, mas ele não disse que produzimos 450 bilhões e só temos o direito de gastar 35,6 bilhões. Para quem produz 450 o que é uma dívida de 70? O "impasse" não está na dívida…

No meu rádio não toca música separatista. A música que gosto de ouvir é a que canta união e igualdade para todos os brasileiros. Muito me orgulho em saber que paulistanos e demais paulistas contribuem tanto para amenizar (longe de resolver) os problemas enfrentados pelos irmãos de outras regiões. O que não me deixa nada orgulhoso é saber que a contribuição que nossa cidade oferece ao Brasil se perde em caminhos e descaminhos nada republicanos.

Quero voltar aos números. A frieza dos números é o contraponto à propaganda oficial. A festa que aconteceu quando o PIB brasileiro alcançou a sexta colocação na economia mundial não foi a mesma que ocorreu quando voltamos à sétima posição. Como o PIB é calculado em dólares, éramos o sexto com o dólar a pouco mais de um real e passamos para sétimo com o dólar a mais de dois reais. Sutilezas “mantegárias”…

Sexta ou sétima economia mundial, pouco importa. Em PIB somos o sétimo, porém em renda per capita (PIB dividido pelo número de habitantes) somos o centésimo primeiro! Com uma renda per capita de 11.900 (em dólares), ou seja, em divisão de riqueza (é o que realmente importa) estamos atrás de: Costa Rica, Cazaquistão, Irã, Líbia, Líbano, Malásia, México, Uruguai, Venezuela, e 91 outros…

O paulistano tem, portanto, uma renda per capita de 11.900. Se considerarmos o PIB da nossa cidade, a renda subiria para 35.000 dólares per capita. Mas, como já vimos, arrecadamos 450 bilhões e só temos 35,6 bilhões…

A propósito, 35.000 dólares é a renda per capita do Japão. Estaríamos pertinho da França (35.600), do Reino Unido (36.600), Finlândia (36.700) e Dinamarca (37.600) e à frente de Itália, Espanha e mais da metade da Europa Como na anedota do marido traído que vende o sofá, vou quebrar meu rádio e assistir um bom filme. Daqueles em que o herói fica com a mocinha…

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