De barroca a 23 de Maio

Eu nasci e passei boa parte de minha infância no trecho da rua Vergueiro com a rua João Julião, no bairro do Paraíso. Naquele tempo, onde hoje existe a Av. 23 de Maio, havia uma barroca e tinha um córrego que ia desaguar no Vale do Anhangabaú. A água deste córrego possibilitava a um floricultor produzir as lindas flores que eram vendidas nas feiras da Aclimação.
Às margens deste córrego existia também um enorme bambuzal onde todos os anos os meus avós iam buscar os brotos de bambu (muito apreciado na culinária japonêsa).
Onde hoje é o Hospital da Beneficência Portuguesa existia um velho casarão abandonado que nos diziam "mal-assombrado" como uma forma de nos assustar para não nos afastarmos muito de nossas casas já que formávamos uma pequena turma de meninos que brincava no tranqüilo trecho da rua João Julião. Na realidade o clarão que víamos ao anoitecer não passava de mendigos que se abrigavam no casarão e possivelmente faziam pequenas fogueiras para se aquecerem.
A João Julião era a única rua da adjacência que tinha uma ponte para atravessar a barroca e atingir o outro trecho da rua para se chegar a rua Maestro Cardim.
No lado da Vergueiro está a igreja de Santo Agostinho, e há quem diga que para aqueles devotos que moravam no lado da Maestro Cardim, e freqüentavam a igreja, passar por aquela ponte era uma forma de penitencia, já que tinham que descer e subir escadas dos dois lados.
Não posso deixar de registrar estas passagens que me vêm a lembrança sempre que passo por este trecho.
No lugar da casa onde nasci está o CCO do Metrô.