Uma das áreas da linguística é a onomástica. É simplesmente de se estupefazer como um nome, ou antes, as transformações por que passam os nomes próprios, sejam os topônimos, antropônimos, etnônimos ou de estabelecimentos comerciais que demonstre toda a metamorfose, às vezes kafkiana, como o de sua magnânima homônima, "A Metamorfose", por que passam os aglomerados humanos, desde uma aldeia no interior de Portugal a uma cosmópolis como São Paulo.
Corriam os fins da década de 50 do passado século XX. Um pouco antes de os centenares de gárrulos pássaros acorrerem aos seus ninhos nas inúmeras árvores das imediações da Avenida Paulista, Alameda Santos e Rua Cubatão, em uma algazarra maravilhosamente ensurdecedora, as donas de casa acorriam à "Quitanda São Manuel" para as compras diárias. Aos azos, as quitandas eram ainda as senhoras absolutas do comércio de víveres e materiais de asseio doméstico ao varejo, em uma São Paulo que, conquanto capital da "Província de São Paulo" desde o século XIX, ainda guardava ares de seu passado "provinciano", na dupla acepção da palavra (capital de uma província e cidade pequena e conservadora).
O senhor Manuel, minhoto católico praticante, batizara – ou melhor, baptizara, como soía falar com ênfase no "p", mudo para os brasileiros – seu estabelecimento comercial com o nome do santo seu homônimo. Em princípios da década seguinte, a "quitanda" cedeu lugar ao mercado Sagres, de um compatriota do senhor Manuel. Mais tarde, o dono do Sagres se "bandeou" ao bairro de Santa Cruz, abrindo uma panificadora, hoje 24 horas, servindo deliciosos pães de tradicionais receitas lusas, que porta o mesmo nome do antigo mercado. O mercado cedeu passo ao supermercado de donos chineses. O nome? Quem tiver arriscado o palpite "Oceano Pacífico" acertou. Desnecessário lembrar qual o oceano que banha as costas do gigante tigre asiático, não é?
Por fim, abriram uma lanchonete ao estilo estadunidense – perdoem-me os leitores por não falar "fast food": sou lusófono com orgulho – já referida no guia de restaurantes e bares de São Paulo como uma das melhores. Omito seu nome, para que não digam que estou fazendo propaganda do local, não obstante a garotada do bairro já a tenha como ponto de encontro de finais de semana e logo saberá de qual se trata. Note-se a transformação da cidade nos estabelecimentos comerciais ao fim da Alameda Santos: da "quitanda portuguesa" de uma cidade provinciana à lanchonete estadunidense de uma metrópole pujante, passando pelo mercado e pelo supermercado. Um pouco da história de São Paulo, em uma São Paulo de tantas histórias e estórias.
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