Dá-lhe Corinthians!

Manhã de domingo chuvoso, ou seria quase de manhã. Minha cachorrinha Marron aos latidos nervosos me tira de um sono aconchegante. Um tanto irritada tento me fazer entender o que está acontecendo tão cedo e, de repente, ouço o soar de quase um apito e… “BAM!” – barulho de fogos, e lá vai minha querida Marron correndo entre a sala e a cozinha com os pelos de suas costas todos eriçados. Peço para que ela se acalme, enquanto tento vestir um casaco que rapidamente puxei do armário. Pés descalços, cabelos despenteados e novo susto, só que agora sem aviso do apito, pois esse se assemelhava a uma bomba.

Corri para a varanda e lá estava o estrupício ainda com a arma em punho, ou seja, com o rojão recém-lançado com o cartucho ainda a soltar rala fumaça. Novamente tentando acalmar minha cachorra, apesar de que seus colegas da redondeza em uníssonos latidos, também se desesperavam com o barulho. Não precisei de muito tempo para lembrar que dias antes o mesmo arruaceiro na mesma posição, em frente ao portão do Clube Banespa, repetia a mesma loucura de um torcedor sem noção, ou noção teria, o que lhe faltava era educação, bom senso. Breve trégua, pois sabia que aqueles dois torpedos apenas prenunciavam guerra em campo e campo esse dos japoneses.

Resolvi preparar um café, sei o quanto essa bebida me acalma, desde o início do ritual em prepará-lo, até sorvê-lo em caneca preferida e escaldada, pois se a algo que me irrita é ser servida de uma xícara de café morno e às vezes requentado.

Bom, mas voltando a origem do barulho, enquanto coava o meu café o delicioso cheiro me fez lembrar de uma torcedora fanática. Daquelas que não respeitava o time dos pais, mas com certeza seus netos seriam corintianos. Lembro que quando nasceu seu primeiro neto, o pai, seu genro são paulino era, e digo que tão fanático quanto a sogra, mas ela sorrateira e ardilosa tanto quanto podia induzia o rebento a ser corintiano. Vale ressaltar que essa disputa entre os torcedores opostos contava com a aquiescência de minha irmã, mãe do infante e que a mesma se dizia neutra e que vencesse o melhor, e assim foi até a morte de minha mãe.

Meu cunhado sabia jogar com a sogra sem causar estranheza entre todos. Virava sim uma grande piada. Ela se sentia em desvantagem, pois seu parceiro, meu pai, também são paulino, pouco lhe ajudava, mas pelo menos não atrapalhava. Quando trouxe meu futuro marido para o meio desses doidos torcedores ela se sentiu agraciada, pois estava ali um parceiro de ponta, que assim como ela sabia convencer os incautos sobre as belezas de ser corintiano. Meu cunhado nunca teve o direito de devolver as ameaças feitas ao primogênito, pois o futuro cunhado de sua sogra foi pai de apenas duas meninas, que até hoje pouco se interessam por futebol.

Dia de jogo com o Corinthians minha mãe fazia questão de chamar a todos, principalmente o genro são paulino e assim lá passavam os dois tempos entre risos e aclamações fervorosas. Como descrevi acima, minha mãe, mulher fantástica na conquista de seu opositor de time, sempre preparava tudo o que ele apreciava para ser deliciado durante o jogo, além do café sempre fresco a servir-lhe. Quando não ocorria de estarem todos juntos, com certeza no dia seguinte ao jogo, e sendo seu time ganhador, recortava as manchetes do jornal, regiamente lido todos os dias e assim que apareciam os opositores ela alegremente já os havia posto a vista de todos as manchetes selecionadas. Era riso só e novas declarações acaloradas e com certeza regada de boa comida e um bom café.

Mas novo estrondo me tira de doce lembrança e tentando acalmar minha querida Marron me sirvo de um gole de café bem quente e meio amargo e me consolo que será uma longa manhã de domingo chuvosa e com certeza corintiana. E dá-lhe Corinthians, pois essa vitória já anunciada eu dedico a você, minha mãe corintiana querida, que com certeza de posse de alguma nuvem branca e preta já se posiciona em céu oriental para mais essa partida do time do seu eterno coração.

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