No final dos anos 60 as novidades iam ganhando seu espaço e uma importância ímpar na minha vida, ainda tão menina. Era como se um grito estivesse sendo construído homeopaticamente e ia tomando forma na garganta para explodir a qualquer momento. Grito de vida, de vida mais. Olhos abertos, percepção aguçada… e vamos viver.
Naquele tempo, milhares de restrições se anunciavam grotescamente, os poderes mais do que podres nos atordoavam noite e dia, noite e dia e a vida pulsava, exigindo resposta. O capitalismo triunfante se acomodava nas melhores poltronas do mundo, com controle remoto nas mãos, e se tornava ainda mais espaçoso e desavergonhado em um regime autoritário como o nosso. Conversas corriqueiras da Guerra Fria eram a corrida espacial, a espionagem, a tragédia sem fim da Guerra do Vietnã, russos e americanos se mostrando os dentes da forma mais desafiadora, nos deixando tímidos, encolhidos, impotentes e, mais uma vez, com medo, muito medo. Na Igreja ainda se falava em fogo do inferno, castigo eterno. Naquele tempo, Deus tinha em mãos um caderninho e anotava tudo: a briga com o irmão, a resposta mal dada para a mãe, o mau pensamento, a cola na hora da prova… tudo. Não escapava nada.
Quando eu comecei a compreender um pouco das coisas, eu imaginava "como é que Deus vai anotar as sessões de tortura, os gritos lancinantes dos oprimidos pela canalhice do poder, o despudor, as falcatruas, as atrocidades contra aqueles jovens tão idealistas do meu país?” Ainda não obtive resposta… Coisa esquisita o pecado! Mãe solteira era uma baita de uma pecadora, a sem-vergonha que havia envergonhado a família, mas os gorilas do DOI-CODI não. Não dá para entender. Eu nunca consegui.
Mas no final daquela década efervescente em termos de buscas e dos grandes movimentos culturais da juventude, apesar da censura cavalar, as novidades iam aparecendo. Começava a haver uma relativa aproximação entre nós, paulistanos, e os chegados. Pessoas chegando da China, da Coréia. Depois de Angola, de Moçambique. Cada qual carregando a sua tragédia pessoal, as dúvidas, o desconforto homérico de deixar para trás os familiares, os amigos, o trabalho, a casa, a escola, os amores, a sensação de abandono e de saudade, mas tudo, tudo mesmo, se resumia em uma única proposta: continuar vivendo.
Foi nesse tempo que, pela primeira vez, vi na nossa rua um rapaz vindo do Canadá para intercâmbio cultural, uma grande novidade da época. Era um rapaz meio amarelo, imponente, com roupas finas, muito diferentes daqueles garotos do nosso bairro do Cambuci, bairro que se desenvolveu graças, sobretudo, à força de trabalho do imigrante italiano. Alguém do Canadá aqui na nossa rua? O meu irmão e os amigos passeavam entusiasmados com ele. Envergonhada, eu o vi pelo canto da janela. E só uma vez.
Os nordestinos também começaram a ter mais visibilidade para o trabalho, dada a chegada em massa desse contingente de trabalhadores guerreiros, que haviam deixado o seu chão seco e quebradiço para a luta desmedida na cidade grande, em uma "sumpaulo" onde caberiam todos, nas fábricas em ebulição, no comércio atraente, nas grandes construções e em todos os cantos. Tempos de Juscelino, dos "50 anos em 5", prosperidade na certa.
Nessas novas convivências, minha mãe ganhou uma receita. Alguém tinha um conhecido, uma pessoa alemã, e, com ela, a receita de Cuca. Ninguém sabia o que era isso. A minha mãe levou para casa o caderno de receita emprestado de alguma colega do colégio e essa receita foi lida com um respeito especial, merecendo uma transcrição com a caneta Parker, aquela caneta tinteiro que nós, os filhos, só olhávamos e escrevi com ela em raríssimas ocasiões. A receita daquela Cuca parecia algo solene: alguma coisa com o sabor de uma parte da Europa, tão distante naqueles tempos, tão impossível, inalcançável… Vista no mapa, no Atlas recém-adquirido, a Europa era um sonho onde jamais colocaríamos os pés. Minha mãe e avó conversavam sobre a receita, como seria, será que daria certo? A distância entre a iguaria e as nossas possibilidades era muita. Era algo proveniente do Velho Mundo. Respeitável, especial, genial quem sabe… e nós éramos tupiniquins, periféricos, pobretões…
Como fazer e comer aquilo? Cuca era coisa de alemão e o diálogo intercultural estava apenas nascendo com tal sutileza que não nos era ainda permitida a doçura e o prazer imenso do encontro. Parece que a minha mãe não fez a tal Cuca. Ficou esquecida no caderno de receitas de capa dura. E hoje, na Santa e Bela Catarina onde resido, eu me deleito. Não somente com a Cuca de abacaxi que acabo de comprar no município de colonização alemã, onde me encontro, mas me maravilho constantemente com os valores culturais que ainda se mesclam poeticamente.
As festas típicas me fazem ainda tremer de emoção e as lágrimas sempre vêm junto com os desfiles de carros de boi, o figurino do século XIX, as crianças loirinhas e sorridentes abanando as mãos para os visitantes. Oktoberfest, Oktobertanz, Festa das Flores, Fenarreco e tantas outras nos remetem aos pioneiros da época da grande imigração. A organização do espaço, o cuidado com as casas, os jardins, o cultivo das hortênsias, o alimento farto que se percebe nos quintais com laranjeiras, pés de acerola, goiabeiras em flor fascinam até um pobre insensível.
Ser paulistana e catarinense ao mesmo tempo é o maior dos privilégios que uma mortal pode almejar, pois se faz do encontro uma profissão e do canto do sabiá uma melodia carregada de lirismo, saudades e paixões. E tudo acompanhado pelo esplendor da primavera.
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