CPF – Um Encontro com a Burocracia em São Paulo – Parte II

Na manhã seguinte, cheguei às 9 da manhã. Não precisava correr nem enfrentar fila, agora que era conhecida do figurão Carlos Soares. Passei todo mundo no saguão, inclusive a mulher que estava em primeiro lugar na fila no dia anterior.

Desta vez, ela não havia chegado tão cedo, e em seu lugar estava uma velhinha embrulhada num xale. Fiz questão de mostrar meu cartãozinho com o nome Carlos Soares a quem quisesse ver. Quando fui barrada na porta, o cartãozinho mostrou sua mágica: era exatamente como uma varinha de condão, que quando apontada a uma pessoa, a fazia desaparecer. Guardas, funcionários e mocinhas de salto alto, todos ficavam de lado para me deixar passar.

Tendo destruído todos os meus inimigos até a porta de Soares, o cartão-varinha de condão ainda precisava me ajudar a fazer sumir, num passe de mágica, a secretária sentada à porta dele, como um leão de pedra, com um jeito de quem tivera um dia mau ou então era permanentemente mal humorada.

Segurando o cartãozinho que mostrei a ela, me olhou com suspeita: “Quem te deu isso?”, perguntou, já com a certeza de que eu havia roubado o cartão de algum lugar e agora estava fingindo que conhecia o homem. “Carlos Soares me disse para ir vê-lo imediatamente”, respondi com segurança. Ela me deu um sorriso satisfeito. Percebi que pensou que eu estava metida em algum problema e que tinha sido chamada pelo chefão. Isso deu a ela tanta satisfação que me mandou entrar no escritório sem mais delongas.

Carlos Soares estava sentado atrás de uma pilha de livros. Um deles era o que ele estava lendo no momento, algo esotérico. Ele me ofereceu uma cadeira e ligou o computador, o qual estava lento novamente. Depois de um pouco, ele conseguiu achar o nome do meu marido. “Tem só um problema”, me disse sério, “esta pessoa já morreu”.

Caí na risada. “Morreu? Ele é meu marido. Eu é que sei se ele está vivo ou morto!”. “Ele está morto”, disse Carlos Soares. “Não, não está, de jeito nenhum, falei com ele agora a pouco”.

Eu estava ficando um pouco nervosa. A gente tem a sensação de que os computadores sabem de tudo e que, se um deles diz que seu marido está morto, ele está mesmo. “Bom, aqui diz que ele morreu em 1988!”. Este era o ano em que meu marido havia voltado para a Inglaterra e eu expliquei o engano para o chefão.

Depois de muito levantar e sentar e sair da sala e voltar, meu amigo Soares me avisou que, se eu voltasse amanhã, ele teria um novo número pronto para o meu marido, caso ele tivesse até lá absoluta certeza de que ele estava vivo. “O senhor quer que eu traga o dito cujo aqui?”, ofereci. “Não precisa, disse Soares. Só traga o passaporte, carteira de identidade, certidão de casamento, carteira de trabalho e certidão de casamento”.

Passaporte ele tinha sem problemas. Certidão de casamento estava em inglês e precisaria de tradução e vários selos para provar ser genuíno. A Identidade estava ainda em Brasília, esperando ser aprovada (carteira de estrangeiro). Carteira de trabalho ele não poderia ter sem o CPF, o qual estávamos tentando achar agora. A certidão de casamento eu tinha em minha bolsa. Era o único documento que tinha comigo no momento, o qual passei às mãos de Soares.

“O casamento foi feito em São Paulo!”. O tom era de acusação. “Como é que pode, seu marido é inglês!”. “Isso não prova para o senhor que ele esteve em São Paulo antes?”.

Expliquei que poderia somente trazer o passaporte e a certidão de nascimento em inglês. Soares não ficou muito satisfeito com isso, mas dava pra ver que ele não queria prolongar a agonia do assunto. Acho que ele queria voltar a ler seu livro (esotérico). Ele deu mais uns cliques no computador, clique aqui e clique ali e resolveu tudo.

“Pronto! Feito! O número dele já está valendo de novo”. Agradeci profusamente. Sei por experiência própria que coisas assim podem se prolongar por meses. Quando eu já estava para sair, ele me perguntou se havia lido o livro que ele estava lendo, mas eu desgosto de leitura esotérica e disse que não.

Ele teria passado um tempo comentando o livro se eu tivesse tido interesse, tenho certeza.

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