Corujas inquietas

Caminhar à noite pelo bairro é ato de irresponsabilidade. Mas ontem foi exatamente o que fizemos. Horário de verão, tarde quente, perfume de terra molhada, ar limpo depois da chuva pesada e uma certa lembrança dos antigos passeios pela cidade, ao anoitecer. Acabávamos de enfrentar o trânsito desumano da sexta feira. Convite para jantar, o carro já na garagem, endereço próximo e resolvemos ir a pé.
Viagem de ida absolutamente tranqüila. Subimos pela "Padre Antonio", avenida de comércio do bairro, lojas abertas, movimento de Natal, e chegamos ao nosso destino quase sem perceber. Depois do jantar fomos para a varanda relaxar e aproveitar a noite. Ouvimos música, alguém tocou violão, cantamos, conversamos e não percebemos as horas.
Momento de ir embora. Na despedida lembramos que estávamos sem carro. Não aceitamos a carona oferecida e firmemente anunciamos – A noite está boa. Viemos a pé vamos voltar a pé. Todos preocupados, nós nem tanto. Concordaram com relutância e a nossa a decisão foi aceita com uma certa incredulidade. Realmente a noite estava uma delícia e o clima mágico, véspera de Natal. Os prédios iluminados com lâmpadas coloridas, um cenário imperdível que só podemos apreciar caminhando pelas ruas. Para voltar utilizamos a mesma rua de comércio que havíamos percorrido horas antes. Porém, desta vez as lojas estavam fechadas. A escuridão e o pouco movimento nos deixou intranqüilos. Iluminação pública fraca e com muitas lâmpadas queimadas. Aceleramos o passo, quase correndo, fugindo dos que por nós passavam, imaginando um provável assaltante em cada pessoa. Quando finalmente chegamos, esbaforidos pela correria e batido o recorde de tempo do percurso que horas antes havíamos cumprido com tranqüilidade, suspiramos aliviados. Estávamos a salvo, em nossa casa.
O telefone tocou. Eram os amigos, aflitos, conferindo o nosso retorno.
Que tempos! Estou falando do bairro do Brooklin, local com muita vegetação bem cuidada, e residências bonitas. A experiência no cotidiano da cidade de São Paulo lembrou de algumas cidades do interior que possuem ruas para passeios noturnos. Bem iluminadas, com música, pipoqueiro, bares e sorveterias, devidamente policiadas, onde as pessoas marcam encontros, os jovens reúnem-se para paquerar e os mais velhos simplesmente para passear ou praticar a salutar caminhada atlética.
Acredito que todos nós estamos perdendo a liberdade, sem perceber. Seria tão bom se houvesse uma rua em cada bairro onde pudéssemos passear, encontrar com amigos ou simplesmente caminhar em segurança. Quem sabe movimentos integrados da comunidade, empresas e órgãos públicos possam criar os espaços para melhorar a qualidade de vida de todos nós.