"Corta americano!"

Garotinho, entre 07 e 08 anos, minha mãe me levava ao barbeiro e dizia simplesmente "corta americano!". Eu, que tinha os cabelos loiros (hoje são castanhos) e cacheados, não gostava da frase e nem do resultado do corte (a cabeça toda raspada, preservando aquele topetinho no alto, era o fim), mas fazer o que.
Pra não acompanhar a tosa pelo espelho, com os olhos, buscava outras coisas pelo salão, como folhinhas, cartazes, desenhos. Lembro-me de alguns, como o amigo da onça, bem de vida, cercado de mulheres e ao lado um mendigo, com seu saquinho às costas e o amigo da onça dizendo "ele fez fiado". Nas folhinhas, a mais recorrente era o Sagrado Coração. Lembro-me também dos perfumes (como em Proust, as lembranças vêm do olfato, perfume barato, Lancaster, pra ser exato), daqueles vidrinhos verdes, vermelhos. Entre esta vidraria toda havia um frasco que me chamava atenção porque dizia que era pra "nascer cabelo" e o barbeiro (de quem não me recordo o nome), mas apenas que era "vizinho do Zé da Água", era careca de pai e mãe.
Outra lembrança bem viva era o nome do fabricante da cadeira de barbeiro gravado no apoio dos pés, que na realidade eu lia bem porque não alcançava, o barbeiro me colocava num banquinho sobre a cadeira com os pés soltos no ar.
Outra inverdade é quando eu digo que "lia bem", na verdade eu lia mal, apenas decifrava o nome FERRANTE e este nome forte e marcante, ficou em minha memória. Com o tempo, fui aprendendo a ler melhor, "Rua Independência", "Cambuci".
Mais tarde, bem mais tarde, passando pela região do Cambuci, vi a placa da Rua Independência. Meu destino era outro, mas enveredei por ela e de repente lá estava a fábrica Ferrante. Foi uma emoção muito grande, foi como reencontrar aquele menininho de pés soltos no ar, brabo com sua mãe por violar os seus cabelos, mas cuja brabeza passava ao primeiro sorriso que ela lhe dirigia, dizendo "tá bonito demais meu menino". Como não acreditar em algo dito assim, com tanta ternura?

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