Copa de 1966

Lembro-me nitidamente da Copa do Mundo de 1966. Morava nesta época em São Paulo, na Rua Almirante Marques de Leão, na Bela Vista e estava com nove anos. Fiquei fascinada com a decoração das ruas, pois sempre vivi em uma pequena cidade do Estado do Rio de Janeiro; naquela época, Angra dos Reis era considerada assim.

Um grande número de moradores empenhou-se para fazer bandeirinhas, cata ventos, franjas verde-amarelas, balõezinhos e diversos tipos de enfeites. Muitos eram ainda de papel, pois o plástico ainda não era tão acessível no mercado.

Os jogos começaram com grande alegria, o Brasil sempre vencendo. A cada vitória, chuvas de papéis picados desciam pelas janelas em festa. Do grande prédio em frente à nossa casa, bandeiras brasileiras eram agitadas pelas inúmeras janelas.

O povo dançava ao batuque da bateria da Vai-Vai, cujos participantes eram, em sua grande maioria, oriundos do bairro. Foguetes espocavam no céu, abrilhantando a festa. Moradores das vilas próximas dançavam pelas ruas, muitos acompanhados de seus inseparáveis rádios de pilha. A televisão, ainda em preto e branco nas casas, bares e padarias ficavam repletos de espectadores.

Muitos apostavam na vitória do Brasil, considerado o grande favorito. As crianças gritavam: “Que venha Portugal, que venha a Inglaterra!”. Na Rua Almirante, as descendências diversas mesclavam-se harmoniosamente, apesar de haver um grande número de italianos e seus descendentes. Residiam ali também várias famílias de portugueses.

E eis que, na fase semi-final, ocorre o jogo Brasil x Portugal. Tudo era alegria no início do jogo, todos brincavam, torciam e cantavam; até que Portugal vence o Brasil. Um enorme silêncio tomou conta dos torcedores que choravam inconformados, agarrados às bandeiras. Ninguém queria acreditar no ocorrido, vozes murmuravam tristemente e a rua aos poucos foi ficando solitária.

Mesmo assim, a decoração permaneceu até que a Copa foi conquistada pela Inglaterra. E os jovens, crianças e torcedores exclamavam: “Nós, brasileiros, esperamos por setenta!”.

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