Conhecer para preservar, pois a história se repete

Como sempre digo, devo em muito a minha formação social e cultural a duas entidades públicas: o antigo Parque Infantil do Itaim, hoje EMEI Tide Setubal e a Biblioteca Infantil do Itaim, a belíssima Biblioteca Pública Anne Frank.<br>Foi freqüentando um enorme quarteirão, com centenas de árvores frutíferas e floridas, em um belo, muito bem cuidado e extenso jardim e quadras poli esportivas, que a minha geração de crianças itahyenses (desde 1946, 47, 48), matriculadas no parquinho e na biblioteca, como as chamávamos, teve o privilégio de passar bem mais que dez iniciais anos de nossa vida.<br>Felizes, alegres, correndo, brincando e subindo nas árvores do Parque Infantil do Itaim, dando perenes preocupações às nossas dedicadas professoras, mas principalmente tendo orientações de civilidade e respeito, além de sermos levados ao gosto da leitura e com noções de como cuidar e sustentar o nosso ambiente através de oficinas de jardinagem e plantio de verduras.<br>Lembro que orgulhosamente as professoras, era assim que as chamávamos, apontando uma foto num quadro da parede principal de uma das salas da casa térrea da então Rua Santelmo, hoje Rua Cojuba, onde funcionava a biblioteca e hoje temos a Creche Santa Teresa, diziam: “aquele ali é o escritor Monteiro Lobato; ele esteve aqui na inauguração e foi um dos seus inspiradores; ele queria que chama-se Biblioteca Saci Pererê, lembrando o Sítio do Pica-Pau Amarelo, dos seus livros homônimos; – a nossa biblioteca é a primeira biblioteca infantil em um bairro”.<br>Atualmente esse enorme quarteirão verde resiste bravamente, por assim dizer, quase impune aos interesses imobiliários. Mantêm escolas, posto de saúde, biblioteca, teatro, creche, APAE e o CAPS. Alterações arquitetônicas, construções, ampliações e cessão de parte do terreno para novas instituições como o colégio estadual e o belíssimo EMEI, ocorreram com o passar dos anos. Mas muitas daquelas árvores já se foram e outras ainda sofrem intervenções indevidas. Incrível!<br>Em um dia desses, do topo de um prédio da região, pude avistar e constatar que o quadrilátero Rua Cojuba, Rua Salvador Cardoso, Avenida Horácio Lafer e Rua Lopes Neto ainda pode ser considerado como detentor da maior densidade arbórea da região ithayense. Que bom.<br>Recentemente, todos os exemplares vegetais (árvores) e alguns arbustos contidos nessa área foram alvo de um belo e voluntário trabalho com alguns moradores da Associação Grupo Memórias do Itaim Bibi, coordenados pelo Departamento de Botânica da USP (Dr. J.R. Pirani) e sob a supervisão da Subprefeitura de Pinheiros. Foram identificadas e catalogadas noventa e seis espécies vegetais, sendo plaqueados os exemplares mais representativos de cada espécie, distribuídos pela citadas vias públicas, e em especial nos jardins da denominada Biblioteca Pública Anne Frank. O projeto – O verde do Itaim Bibi – continua com o objetivo de catalogar os exemplares arbóreos espalhados pelo bairro, missão que requer o apoio e colaboração de todos. Já catalogamos parte das avenidas Brigadeiro Faria Lima, Presidente Juscelino Kubitschek, Cidade Jardim e as ruas Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, João Cachoeira e Amauri. Agora vamos para as ruas Joaquim Floriano, Tabapuã, Iguatemi e Avenida São Gabriel, e depois…<br>Já o Teatro Infantil, outro ícone itahyense, foi inaugurado em 1955. Agora se chama Teatro Décio de Almeida Prado, novo orgulho da comunidade junto com o Parque do Povo sofre ampla e cuidadosa reformulação, o primeiro com a instalação de equipamentos supermodernos e até podendo receber um belo piano de cauda. Espera-se memoráveis apresentações culturais.<br>E eu que quando jovem ensaiava e apresentava textos e esquetes no palco com piso de madeira e acima de um fosso empoeirado. Como pai e orgulhoso morador do bairro, espero que a minha filha, pós-graduanda em Artes Cênicas e advogada, tenha a oportunidade de encenar algum texto nesse espaço de privilegiada acústica. Ansiosamente aguardo o término da implantação do novo Parque do Povo, lá na margem direita do rio Pinheiros e assim poder passear com meus futuros netos, como o fiz quando criança conduzido pelas mãos seguras dos meus pais, já falecidos.<br><br>e-mail do autor: [email protected]