Congonhas, uma praia paulistana

Para muitos, uma cidade para ter algum atrativo tem obrigatoriamente que ter praia, que é diversão gratuita. Eu já não penso mais desta maneira, hoje prefiro mais o sossego do interior. Praia de paulistano atualmente é Shopping Center. Lá pelos idos de 1960 nem isso havia por aqui. Havia as represas de Santo Amaro, naqueles tempos com águas mais límpidas, mas muito distantes para quem morava em outras regiões da cidade que não fosse a zona sul. E a maioria não tinha automóvel. Onde ir então, sem ter que gastar muito dinheiro, que para a maioria era curto? O Aeroporto de Congonhas era uma das opções.

Eu estudava de manhã e reservava as tardes para minhas vagabundagens, já que nunca fui muito de estudar em casa. Era um programa duplo no cine Cruzeiro, uma tarde na Rodoviária Júlio Prestes (sou até hoje um busófilo inveterado) ou uma tarde em Congonhas. Morando na Vila Mariana, tomava o ônibus nº 600 (Perdizes-Aeroporto) da TUPI, que me deixava dentro do aeroporto.

Naquela época havia só aquele saguão principal, em cujo piso superior ficava o restaurante, com um terraço. O problema era que, para ficar ali, era preciso consumir alguma coisa. À direita de quem entrava havia um enorme corredor em curva. Em cima dele, na parte externa, ficava a PRAIA. Nos finais de semana aquilo ficava lotado de gente. Ficava-se em pé ou, com um pouco de sorte, conseguia-se um lugar sentado. Sentava-se na mureta com as pernas penduradas para fora e debruçado no corrimão. Aí era uma festa! Eram Scandias, DC-3, Curtiss Comando, Convairs, Constellations, todos com motor a pistão. As hélices, uma a uma, começavam a girar, e quando o motor "pegava" saía uma fumaceira por trás. Depois começaram a aparecer os Viscount turbo-hélices e por fim os primeiros jatos-puros, cujo primeiro representante foi o Caravelle.

Minha irmã, na mesma época, trabalhou um ano como aeromoça da Vasp. Ficou pouco tempo porque cada vez que saía de casa para trabalhar via a cara de tristeza da minha mãe, como quem a estivesse vendo pela última vez. A gota d'água foi a queda de um Scandia no Jabaquara. O rádio noticiou o acidente e mencionou, por engano, o nome da minha irmã (Maria Helena) como uma das vítimas fatais. Minha tia, em Santo André, ouviu a notícia e quase teve um troço. Minha irmã estava dormindo em casa. Quem morreu foi a comissária Maria Amélia, a Amelinha, uma japonesinha. Alegria para uns, tristeza para outros. Fazer o quê? A vida é assim mesmo.

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