Por uma brusca noção do tempo, tão levemente fugitivo, transporto-me em pensamentos para os doces momentos de minha saudosa infância. Sem saber como, encontrei-me de repente, em evocações do espírito, isto é, em frente à casa do José Maria Vieira, e vi ali reunidos muitos moleques da minha idade. Deu uma grande saudade daquela infância que, com o passar do tempo, se desfez como se fosse uma simples bolinha de sabão.
– Vamos jogar bolinha de gude? – disse o Nicola.
O instrumento para fazer os furinhos na terra era uma simples tampinha de cerveja que alguém tinha trazido de casa.
– Zéca, deixa que eu faço os buraquinhos na terra – disse o Bubi, na esquina da Cayowaá, com a Rua do Cursino, olhando para o chão de terra batida.
– São apenas quatro covinhas em forma de “L” que você tem que cavar – disse o Nicola filho do dono da farmácia do bairro.
– Como se joga? – perguntou o Luizinho que só tinha oito anos de idade.
– É simples – disse o Bubi – Você faz quatro furinhos na terra, em forma de “L”, sendo três na reta e uma na lateral formando um “L”.
A variante do jogo consistia em fazer um percurso de ida e volta. O Bubi jogou a primeira bolinha. Parou a três dedos da primeira casinha. O espaço foi medido pelo Zé Maria, com o dedo indicativo voltado para baixo, no chão de terra batida. Depois, foi a vez do Nicola que, debruçado sobre o próprio corpo, também jogou a bolinha colorida. Ela tinha parado a cinco dedos da covinha. O espaço também foi medido com o dedo indicador do Zé Maria. Tinha ficado distante dois dedos a mais da covinha do Bubi. Agora era a vez do Zé Maria. Olhou com o canto do olho, fez a mira e jogou. A bolinha parou a quatro dedos da casinha.
– Joga a bolinha, Luizinho – ouviu-se em uníssono, a voz gritada da molecada que agora se posicionava em volta da primeira casinha, chamando o menino para que jogasse a bolinha.
O Luizinho jogou. A princípio com um pouco de dificuldade porque não havia mirado com uma boa pontaria no furo e a bolinha colorida girou no próprio eixo e parou a quase um palmo de distância da primeira casinha.
– Eu sou o segundo a jogar! – gritou o Zé Maria, puxando o calção para cima do umbigo.
– Você começa Bubi! – disse.
Efetivamente, o Bubi era o que mais tinha se aproximado da covinha. Com a palma da mão esquerda estendida e com a mão direita segurava a bolinha, em uma posição que o dedo polegar ficasse em uma posição de arremesso e tinha que acertar no furinho da segunda covinha. O Bubi olhou com canto do olho, se posicionou de cócoras no chão, mediu a distância com a palma da mão esquerda estendida e com a mão direita segurando a bolinha jogou a esfera. Ela fez uma parábola no chão e, rodopiando, caiu vagarosamente no segundo furo. Agora tinha o direito de continuar jogando. Fez novamente mira, atirou a bolinha em direção do terceiro furo. Ela não entrou.
– Errou! Gritou o Luizinho.
– Agora é minha vez! – disse o Zé Maria.
O Nicola que estava perto contestou:
– Não! Agora é minha vez de jogar, Zé Maria.
A coisa começou a ficar tensa. O Zé Maria estava fingindo que não estava ouvindo.
– Você está surdo? Vá roubar no inferno – disse furioso o Nicola, fechando ambos os punhos pronto para socar o menino.
– Calma! Gritou o Bubi segurando o Nicola pelo calção.
– Esse desgraçado não está observando a pontuação inicial. Agora é a minha vez de jogar – disse o Nicola, espumando de raiva.
– Fecha a latrina seu burro! – gritou o Zé Maria – Agora quem joga sou eu.
– Então ninguém mais joga, gritou o Luizinho, dando uma sacudidela na juba leonina.
Ele era o mais forte de todos os moleques. No dia anterior, depois das aulas, na saída do grupo escolar Portugal, tinha dado uma boa surra no Benedito da mercearia. E com os pés estendidos, como se estivesse passando uma rasteira, chutou todas as bolinhas para longe.
Ninguém em sã consciência protestou. O Luizinho saiu de seu lugar, todo ofegante, todo vermelho de raiva e foi embora. O jogo de bolinhas de gude da molecada do Sumaré tinha acabado de forma melancólica, com os jogadores indo embora para suas respectivas casas.