Como era o Largo da Concórdia… O Largo de minha infância

Ali tinha o Teatro Colombo, nome tirado do lindo Teatro Colon de Buenos Aires, que existe e resiste até hoje. Uma Associação de italianos e descendentes tinha comprado o imóvel e o transformara em teatro; lembro-me das frisas e dos camarotes, as cadeiras aveludadas, onde anualmente eram recebidas companhias de ópera italianas. O pessoal, na maioria operários e operárias, colocava seus melhores ternos e vestidos para assisti-las.

Foi ali, na sua porta central que foi montado um palco onde em 26 de setembro de 1952 cantou pela última vez o Rei da Voz – Francisco Alves. Com medo de viajar de avião ele voltou ao Rio de Janeiro pela Via Dutra e na altura de Taubaté seu carro se chocou com outro e ele faleceu. Eu assisti sua última apresentação, levado pelas mãos da minha prima Diva. Para comparar com os dias atuais ele era uma espécie de Roberto Carlos da época. Na noite seguinte, voltando de um casamento com meus pais recebemos a notícia de sua morte por um vizinho.

Voltando a falar do Largo, atrás do Teatro Colombo tinha um ponto de carroças de aluguel e dois bebedouros para os cavalos saciarem a sede. Ali, onde hoje é a Caixa Econômica Federal, também ficava a fábrica Peixe – onde eram fabricados produtos como marmeladas e goiabadas. Inúmeros caminhões carregados de matérias-primas ficavam a espera do lado de fora da fábrica até chegar a sua vez de serem descarregados. Nós – a molecada – íamos pedir para os motoristas dos caminhões as deliciosas goiabas e eles nos permitiam tirar algumas que estavam acondicionadas nas caixas abertas que lotavam suas carrocerias. Nós lustrávamos umas tantas delas para vendermos na feira do domingo e ganharmos algum dinheiro para entrar na matinê do Cine Oberdan.

Em um dos lados do Largo ficava a sede de um clube de futebol chamado Minas Gerais, ao lado de uma das saídas do Cine Babilônia; nos sábados e domingos havia baile na sede do clube…

O trânsito na Rangel Pestana era intenso e moroso por causa da proximidade da porteira do Brás; isso até 1968 quando o Adhemar de Barros, então governador de São Paulo, inaugurou o primeiro Viaduto – o do Gasômetro, para desafogar o trânsito. A inauguração veio com aquela inesquecível música, cuja letra começava dizendo: “Adeus, adeus, porteira do Brás; já vai embora e já vai tarde de mais"

Tempos depois fizeram um segundo viaduto, desta vez na própria Avenida Rangel Pestana. Naqueles tempos as famílias passeavam tranquilamente pelo Largo, curtindo os sábados e domingos, depois de assistirem a missa na Igreja do Pari ou na Igreja de São João. Na Rangel Pestana existia uma loja chamada Loja dos dois mil réis, que na realidade era uma das Lojas Americanas.

Nossa! Hoje o Largo de minha infância está tão diferente!

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