Com Jesus no coração!

Sempre tive que ir à missa aos domingos. Sempre!
Como bom filho de mãe portuguesa, católica, católica não, catolicíssima, não tinha por onde escapar das missas.
Ela queria que eu tivesse Jesus no coração. Ou até queria mais. Queria que eu fosse padre! Sim, padre! Achava que eu tinha vocação. Justamente eu!
Mal sabia ela das minhas peripécias. Mal sabia ela das minhas traquinagens. Das bombinhas colocadas nos rabos dos gatos dos vizinhos. Das batatas nos escapamentos dos carros parados na rua. Da caixa de papelão no meio da calçada, com um paralelepípedo dentro, para os distraídos chutarem. Das moedas coladas no meio da calçada, para os incautos gananciosos tentarem pegar. Do fio de náilon amarrado no poste, que a gente puxava na hora que alguém passava pela calçada. Dos chicletes nos cabelos encaracolados das meninas. Da farinha nos sapatos do meu avô. Da pasta de dente nas lentes dos óculos dele, no criado-mudo. Do Alka-Selzer nos ouvidos do meu tio enquanto dormia na frente da tevê (é, a tevê dava sono, e continua dando!). Dos trotes nos telefones escolhidos por acaso na lista telefônica (lembra delas?!). E outras cositas mas!
Mas tinha que ir sempre à missa. Talvez até me fizesse bem, para me eximir desses pequenos delitos de pequeno. E como diz o ditado: "é de pequeno que se torce o pepino".
Talvez indo à missa e me confessando ao Padre Vicente, me redimia dos pecados. Zerava a quilometragem… e ficava pronto para novos pecados na semana que se iniciava. Mas daí, tinha a missa do próximo domingo. E assim ia vivendo, de missa em missa, de pecado em pecado.
Mas a minha mãe, que não sabia dessa minha vida criminosa, achava que eu poderia ser um bom padre. Uma vocação honrosa! Um filho religioso, e, quem sabe, um dia, um bispo, um arcebispo, um papa. Um papa brasileiro, já pensou?!
E ainda em tenra idade, a idéia não me era de todo ruim. Assim, resolvi iniciar a coisa pelo início. Comecei como coroinha na capela do próprio Padre Vicente.
Aliás, parece que era moda. Muitos garotos queriam ser coroinhas. Não sei exatamente o que atraia tanto. Com certeza não era para tomar o vinho do padre. E o do Padre Vicente era especial. Não era de São Roque não. O Padre Vicente era exigente. Parece que seu vinho vinha do sul. Das bandas de Bento Gonçalves.
Mas até sei o que nos atraía: a quadra de esportes do colégio ao qual a capela pertencia. Uma quadra das melhores. A gente, que estava acostumado a jogar bola no meio da rua, sobre o paralelepípedo, dando topada a torto e a direito nas pedras e nas guias das calçadas, aquela quadra era o Maracanã do futebol da molecada. Todos queriam jogar nela. E o caminho… ou ser aluno da escola, que era cara, ou ser coroinha. No final da missa era correr, tirar o paramento, aquela túnica colorida, miniatura de padre, colocar o calção, porque a conga e a camiseta já estavam por baixo da roupa e ripa na chulipa (saudade do Osmar Santos).
Daí eram duas horas de imensa farra na quadra, a algazarra geral da molecada, que teve que agüentar uma missa inteira em silêncio, ouvindo o sermão do Padre Vicente – sempre o mesmo sermão – e os coros das beatas, nas músicas da missa. Não sei o que era pior. Eram dois times em campo: filisteus versus fariseus. Viu como a molecada prestava atenção no sermão? Também com tanta repetição do Padre Vicente!
Às vezes ganhavam os fariseus, às vezes eram os filisteus. Nunca empatava, porque daí ia para os pênaltis.
E toda a semana a gente passava na expectativa do joguinho na quadra depois da missa. Mesmo com o sermão do Padre Vicente, que até um dia foi apitar uma partida.
Mas com o tempo, percebi que não tinha vocação para a vida religiosa que a minha mãe tanto almejara para mim. E talvez até ela tenha percebido, ou algum vizinho andou lhe contando das minhas peraltices. E nem o jogo na quadra era mais o fator motivacional para o sacrifício da vida de coroinha. Mesmo porque já estavam nascendo os primeiros pêlos no meu rosto. E além de Jesus queria ter mais alguém em meu coração.
Daí a saída foi freqüentar a comunidade de jovens que o próprio Padre Vicente organizava. Passei então a ir aos bailinhos nos sábados à noite no próprio salão paroquial, nos baixios da igreja. Festas bastante animadas, com todos os meus amigos da quadra, ex-coroinhas como eu, que agora estavam todos crescidos, com os mesmos pêlos na cara.
E rolavam as músicas de Johnny Rivers, “Do you wanna dance?”. E eu tirava a Ana Paula pra dançar. E de tanto dançar com ela, meu coração que era só de Jesus, acabou arrumando outro inquilino, digo, inquilina. Os dois no meu coração: Ana Paula e Jesus.
E assim foram muitas noites de sábado. Todos os sábados. A turma, eu e Ana Paula.
Até o dia em que, no baile, apareceu um tipo que não era da nossa turma. Não fora coroinha da nossa paróquia. Um sapo de outra lagoa. Era mais velho que eu e mais experiente com essas coisas do coração. Tirou Ana Paula pra dançar. Balançou o seu coração e quem acabou dançando fui eu.
Fiquei sem Ana Paula. Restava apenas ouvir Nat King Cole, “Unforgettable”. E meu coração voltou a ser só de Jesus, até o dia em que conheci Silvia! Mas aí é outra história.

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