Durante oito anos, de 1968 a 1975, no auge da severidade da ditadura militar, estudei no Colégio Estadual Melvin Jones desde o curso de admissão ao ginásio, curso ginasial e curso colegial, que já se chamou científico, depois colegial, depois disso 2º grau e atualmente curso médio, mas o ensino não muda, só piora, a escola tinha esse nome para a turma noturna e Colégio Estadual D. Duarte Leopoldo e Silva durante o diurno, que a partir de 1976 deixou de ser Melvin Jones, sendo, só, D. Duarte Leopoldo e Silva. O colégio fica na Avenida De Pinedo, 539, esquina com a Rua Nossa Sra. do Socorro, no bairro do Socorro, próximo da Represa Guarapiranga, do clube dançante Vila Sofia e circundado por um imenso Parque Industrial, hoje em extinção. Socorro é um dos portais do grande manancial, da nossa maior caixa d'água que é o complexo Guarapiranga, água, fauna e flora dentro da capital paulista.
Estudava à noite, nosso uniforme era uma blusa de cor cinza claro com punhos, golas e cintura de cor vermelha, nas costas tinha o símbolo do Lions Club Internacional, um rosto duplo de leão muito bonito, até os anos de 1970; neste ano em diante foi adotado pelo colégio um novo uniforme, que consistia num avental ou jaleco ou ainda guarda pó de cor branca, que tinha o comprimento variado conforme gosto ou erro da costureira, uns iam até o joelho, outro tipo camisa e a maioria até a cintura, era mais discreto, o que destoava era a cor, um mais branco que o outro, tinha uns quase transparentes, outro era um bege, o detalhe bonito era o bolso que tinha o distintivo de um leão com dupla face (lions).
Quando houve essa mudança muito estranharam, de repente as ruas, ponto de ônibus e arredores do colégio, todos de branco, parecia escola de enfermagem…
Nessa época, década de 60/70, a Avenida De Pinedo era residencial, com pequenos armazéns de secos e molhados e muitos bares, inclusive em frente ao colégio. Hoje é uma avenida de grande comércio e muitos bancos com um movimento grandioso. Essa avenida era servida por várias linhas de ônibus, como Viação São Luiz, Bola Branca, N. Sra. do Socorro, Gatusa, e todos iam despejando os alunos à porta da escola e tarde da noite iam recolhendo-os numa constância que hoje relembramos com saudades.
Aos poucos os alunos iam chegando, uns vagarosamente, outros apressados, outros ainda comendo algo, livros caindo, a menina se penteando, o jovem arrumando o topete, pois o sinal acabou de tocar e todos tinham que se perfilar no pátio da escola bem enfileirados, um atrás do outro, as meninas moças na frente e os marmanjos atrás, tudo isso sob os olhares dos inspetores de alunos, D. Rosa, Sr. Mário Zillig, e às vezes sob o olhar severo e penetrante do Diretor Sr. Jorge José Abrahão, diretor temido, quase não falava, ou seja, falava com o olhar, sempre de terno marrom, que lhe dava um ar de mais seriedade. Era um diretor que fazia sua ronda escolar, andava sobre plumas em torno das salas de aula, corredores para inspecionar por si só para ver se flagrava alguma indisciplina de alunos, e sempre pegava alguém, e a suspensão era inevitável. Dirigiu o colégio até os anos de 1972, quando foi promovido para uma outra repartição, sendo substituído pelo Sr. Dirceu Machado Filho, marido da professora de história D. Rita de Cássia.
Tanto antes das aulas como no recreio o local mais frequentado era a lanchonete, cantina, do colégio, onde a maioria fazia sua "janta" apressada e onde corriam as fofocas e paqueras. Era comandado pela família do Sr. Antoninho, depois era a quadra de esportes com muitas "rodinhas" de alunos.
Ao tocar o sinal, todos os alunos iam para o pátio coberto fazer a fila de entrada com a cadernetinha aberta na mão para ser entregue na porta de entrada um a um e íamos depositando numa caixa com os olhares de uma outra inspetora de aluno. Após todos entrarem na sala de aula, as caixas com as cadernetas iam para a secretaria para serem carimbadas com o presente e só na última aula um inspetor ia levá-las na classe para serem distribuídas pelo líder de classe, isso evitava muito a cabulagem de aula ou escapadas na hora do recreio.
Como em todas as escolas, independente da qualidade, tinha os brincalhões, os tímidos, os mais inteligentes ou mais “cdf”, os mais caxias, os que gostavam de entrar na segunda aula, enfim, gente de todo tipo, porém uma coisa era fatal: a rigorosa disciplina na maioria das aulas.
Havia professores por cuja simples presença a classe se calava, como a de História Dona Rita de Cássia Machado, que inclusive quando entrava na sala de aula os alunos tinham que ficar em pé e ao entrar ainda dava uma olhada se tinha algum espertinho no fundo da classe sentado, após uns 10 segundos mandava a turma sentar-se. Era uma professora alta clara, de cabelos negros, muito elegante e rigorosa em suas aulas.
Os professores de Português, José Orandil, Antonio Gianella e Antonio Henriques, todos serenos e sérios, dominavam a classe com categoria, professor Gianella com ar superior gostava de ensinar, além da matéria, pequenas frases e detalhes que iríamos usar em nossas vidas, que eram vícios de linguagem e para não repetirmos como, por exemplo, “seje”, não existe o verbo seje (ser), não dizer mim come, mim chora, e sim eu como, eu choro, alguns verbos transitivos diretos, objeto direto e indireto, gostava de usar o verbo soer (acostumar), também a diferença entre insipiente e incipiente.
As aulas de Contabilidade eram dadas pelo professor João Antonio Carneiro, magrão, morava no próprio bairro da escola.
Francês era dado por D. Marina Caldas, não consigo lembrar da fisionomia dela, imperdoável, mas é o tempo e ele passa e a memória vai.
Física era o Professor Jihad Aref Saad, um jovem professor.
Latim professora Ilde, Senhora em fase de aposentadoria, mas muito dedicada, culta ao extremo e muito delicada, morava no Campo Belo e ia até o bairro do Socorro lecionar.
As aulas de Geografia era com a simpática e calma D. Mércia Mendonça Kaluf, senhora de gestos simples e carinhosa.
Biologia era com a Luzia Pereira de Carvalho, pequena na estatura, mas severa nas provas, me reprovou um ano por 0,25, coisa que hoje a meninada não sabe o que é, passam direto, não sabem calcular a média ponderada ou aritmética das notas, não sabem o que é ficar para a segunda época, não sabem o que é uma sabatina.
As aulas de OSPB, Organização Social e Política, EMC, Educação Moral e Cívica, eram aulas dada pela professora Neuza Maria Barbiere de Azevedo, em que o nacionalismo era pregado com seriedade e amor à pátria, à bandeira, também, nunca se falou tanto de civilidade, nesses anos de chumbo que vivíamos.
As aulas de Inglês eram mais descontraídas, com uma professora bem jovem que mexia com nossos egos, era a Maria da Penha.
Química sempre foi dada por professores que nunca ficaram muito tempo no Colégio, tinha um professor de certa idade, Argemiro, que dizia – "Eu arrumei uma forma de tirar seu dinheiro, portanto estudem para fazer o mesmo”. E um outro mais jovem, Jesiel Chanes Bertatti.
Matemática era dada pela D. Mioko e depois pela inesquecível Sandra Mendes e sua homônima, Sandra Augusta de Araújo Castro, professoras bonitas, uma loira e uma morena, mas muito severas, sabiam a matéria como ninguém, demonstravam todo o saber nas aulas.
Vale salientar que a maioria desses professores citados nos acompanhou desde o primeiro ano ginasial até o terceiro colegial, fato raro hoje em dia, isso contribuiu muito na educação no nosso tempo, pois os professores conheciam a virtude e deficiência de cada um.
Quanto à educação física, tínhamos o experiente e dedicado "Seu Toninho", que também foi juiz no Cartório do Socorro e gostava muito de esportes. O nosso colégio tinha um dos melhores times de futebol de salão da região, ele treinava muito a turma, conforme o jogo ou campeonato saímos da aula mais cedo para a partida em outro colégio ou clube. Lembro-me muito do Instituto Pasteur, Clube Joerg Bruder, Campo Grande.
Como em qualquer colégio tinha as famosas rodinhas, mas sempre vigiadas, pelos inspetores. Minha turma era formada por muitos colegas, tinha a turma do futebol, a turma do estudo, cdf, a turma da paquera, cinema e havia tempo para tudo.
A turma do esporte tinha muitos e bons de bola, com os quais ainda mantenho contato, são: Rosevaldo, "Rose", que apesar do nome era homem, gostava e ainda gosta de uma cerveja, com ele comecei a tomar gosto por uma geladinha; Nivaldo; Luis Carlos, pintadinho; Ariovaldo; Nereu; Pulga, o caricaturista; Isaias; e na seleção do Colégio tinha alunos de várias classes, como Chicão, Reinaldo, Redher, Lúcio, Urias, que treinou no Palmeiras, faleceu num acidente ainda novo, dentre outros.
A turma do estudo mesmo e que chegava mais cedo para rachar era: Salvatore Lanza (hoje advogado), Giuseppe Lanza, (administrador), Nelson Felix (Engenheiro Civil e massoterápico), dentre outros que também tenho contato.
Dentre outros colegas e amigos de colégio e que nunca ficamos na mesma classe, destaco: Carlos Fatorelli, o líder anarquista e filósofo, foi depois técnico projetista industrial, em seguida formou-se professor de História pela PUC, hoje historiador, pesquisador; Maria Marques, odontóloga; Conceição, médica ortopedista; Redher, professor de Matemática e depois diretor do mesmo; Levi, o disciplinado, engenheiro mecânico; Ademir, o soneca, dormia muito nas aulas, tanto que a mala dele viajava pela classe e ele não percebia, hoje engenheiro da Sabesp; Nelson Felix, o ingênuo, hoje engenheiro civil; enfim, a maioria se deu bem e estão honrando esse colégio.
E para isso, cito os nomes dos formandos da minha turma de ginásio de 1971, cuja maioria nunca mais encontrei, quem sabe um dia no São Paulo Minha Cidade:
Adilson Silva Lima – Ademir Rodnei Mandato – Celeste Pereira – Creuza de Moura e Oliveira – Edneia Machado da Silva – Edson Jun Nagai – Estanislau Rybczynski – Felomena Elizete Fernandes – Hiroko Imuta – Hiromi Mimatami – Humberto Barbato Neto – Issao Yamamoto – Joaquim Thomas Hegedus – José Mauro de Castilho – Luis Carlos Bressan – Maria de Los Angeles Gonzáles – Marta Mutumi Uchida – Miriam Fernandes – Miyako Fuji – Nilton Delfino – Nivaldo Cavallaro – Rosires Werder – Sidney Silva Lima – Sirley da Silva Nery – Solange Souza Santos – Sueli Terezinha Lingiardi – Wanderley Antonio Domingues – Yokinori Nakamasu – Rosely Aparecida Saramelli – Aparecido Figueiredo da Silva.
Muitos desses amigos não continuaram o curso colegial, uns foram para escolas técnicas, outros mudaram de turma e outro ainda trocaram de colégio.
Assim seguiram mais três anos de curso colegial com os seguintes colegas se formando em 1975, que grande parte também nunca mais encontrei, mas os que tenho encontrado estão bem, formados e tocando a vida:
Ana da Silva Barros – Arlindo Schunk – Bráulio Jose Borges – Cláudio Ythiro Narita – Eduardo Melman – Eduardo Morais Camargo – Elizabeth Maria Turina – Erivaldo Desth Veloso -Estanislau Rybczynski – Gilda de Lima – Giuseppe Lanza – Jony Sigueo Kawano – Jose Aparecido Moraes – Julia Miyato Okai – Kayioto Imada – Levi Rodrigues – Luiz Carlos Leonardo – Luiz Carlos Paladino – Luiz Roberto Ramos de Sá – Marcio Roberto dos Santos – Marco Antonio Daros – Maria Claudinete de S. Oliveira – Marcio Donizete Martins – Mario Enemoto – Moacir Ramalho Jorje – Rosa Maria Gil – Rosmael Steil – Salvatore Lanza – Sandra B. Nardelli – Sergio Seigi Moriga – Tereza Maria De S. Fernandes – Waldir Garcia de Sales – Wilson Roberto Alves.
Também lembro os funcionários e inspetores de alunos, com os quais mantínhamos contato todos os dias, tomando broncas, advertências, encaminhamento para diretoria por alguma falta mais grave no pátio do colégio, enfim, o contato com eles era inevitável, bem ou mal para nós eles cumpriam seu dever, e na soma total eles tiveram muito créditos, como:
Amália Ângela Penna – Arlindo Rosa – Benedita Genil Medeiros – Expedito R. Sobrinho – Dirce Machado de Campos – Dario da Silva – João Paulo Nogueira – Maria A. A. P. Scandar – Maria do Carmo A. de Oliveira – Marinalva da Silva Santos – Mario Zillig, que tinha uma chácara na Represa Guarapiranga e sempre convidava os alunos do peito para passar uns finais de semana lá, como era bom – Rosa Medina Capellari – Simião M. Archanjo. Todos eles, como a maioria dos professores, nos acompanharam desde a admissão, ginásio e colégio.
Já nessa época se dizia que uma escola era boa pela quantidade de descendentes de japoneses que nela estudava, e o Melvin Jones tinha muitos orientais, e como acontecia nos cursinhos pré-vestibular, em que os professores falavam e ainda dizem, “enquanto o aluno brasileiro brincava o japonês estudava”, isso se confirma até os dias de hoje, prova é que, num vestibular que minha filha fez para entrar na UNICAMP, tinha ela e 39 orientais descendentes, mais ou menos.
Vale salientar que o colégio tinha uma programação de festividades já divulgada no início do ano letivo, como: festividades cívicas como o 7 de Setembro, 31 de Março, 13 de Maio e 15 de Novembro, com desfiles e comemorações respeitosas e as bandeiras brasileira e paulista sempre eram hasteadas com respeito.
As festas típicas eram bem organizadas, como, principalmente, as Juninas, que paravam o bairro com espetaculares e completas quermesses.
Todo final de semana tinha práticas esportivas e campeonato de futebol de salão, o esporte mais concorrido.
A festa de formatura, colação de grau, era realizada sempre no Teatro Paulo Eiró (poeta santamarense), na Avenida Adolfo Pinheiro, em Santo Amaro, com a presença de todos os alunos formandos, professores, familiares e convidados que lotavam o teatro.
A missa era feita na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do próprio bairro, no Largo do Socorro, na confluência da Avenida Robert Kennedy, Avenida De Pinedo e Avenida Guarapiranga.
Belas recordações tanto da formatura do ginásio como no colégio, todos nós que vivíamos de branco e com roupa esporte por baixo do guarda pó, e naquele momento glorioso todos de terno, exuberantes, um quase não reconhecendo o colega, e as moças então ficavam deslumbrantes em seus modelitos, e no baile, então, era o máximo, terminavam de madrugada com grande comemoração, como acontecia no Club Homs, na Paulista, 735.
Um fator interessante de encontros e desencontros de velhos colegas foi o crescimento vertiginoso da cidade, até o final dos anos 1980, quando na zona sul (lado de Santo Amaro) só havia dois a três shoppings e dois a três hipermercados, ainda encontrávamos alguns colegas de colégio, uns casados e formados, outros ainda na faculdade. Depois que em nossa região construíram-se um shopping e um hipermercado por bairro, cada um ficou no seu local e a partir daí os encontros realmente acabaram.
Hoje, passados aproximadamente 35 anos, mesmo depois de formado, quase aposentado, ainda sinto saudades quando passo na Avenida De Pinedo e em frente ao ex-Melvin Jones, pois foi ali que consegui toda base acadêmica, moral e cívica.
Esses anos todos, esses docentes, discentes e funcionários ajudaram a construir um pedacinho da boa história estudantil de São Paulo num bairro da Zona Sul, período em que a droga mais perigosa que se ouvia falar era a maconha, a polícia nunca precisou entrar no colégio, onde, nessa época, cheirar pó era o talco que se usava no corpo, onde tomar uma picada era a vacina contra tosse comprida, gripe, o respeito sempre foi mútuo entre mestre e aluno, professor dava aula mesmo e aluno aprendia de verdade, sabíamos qual era nossa obrigação e nosso direito.
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