Cine Valparaiso – A maior sala de projeção da América Latina

Quem passa hoje pelo triângulo compreendido pelas Avenidas Nova Cantareira, Tucuruvi e a Rua Domingos Calheiros, tem menos de 30 anos ou não é morador antigo do Tucuruvi, jamais poderia imaginar que ali onde hoje se ergue um grande supermercado existiu "a maior sala de projeção da América Latina", o cine Valparaiso.
O cine Valparaiso foi inaugurado, não tenho certeza, no finalzinho dos anos 50 ou princípio dos anos 60 com o que hoje chamamos filme-arrasa-quarteirão: "Os doze Mandamentos".
Foi um cinema superlativo: tela, sala, recepção enormes. Assistia-se aos filmes com projeção e som perfeitos confortavelmente acomodado em estofadas poltronas vermelhas.
Não compareci à sessão inaugural pois era muito pequeno, mas a partir de meados dos anos 60, já pré-adolescente minha presença era constante, tendo assistido a grandes clássicos: Ben-Hur, Barrabás, Volta ao mundo em 80 dias…
Aos domingos, o point da molecada era a matinê. A sessão começava às 14, mas às 13 horas já havia fila que dobrava a esquina, com intensa movimentação, pois ali começava a troca de olhares, a paquera com as menininhas.
Uma vez dentro do cinema, continuava o vai e vem dos meninos à procura das meninas que haviam paquerado nas filas.
Era dado o sinal de início da sessão.
Apagavam-se lentamente as luzes, abria-se a enorme cortina e começava o espetáculo.
Em sessão dupla eram exibidos um filme de ação, normalmente bang-bang, e outro comédia ou musical com Jerry Lewis, Elvis Presley, Doris Day, Dean Martin, Cantinflas entre outros.
Confesso que, nessa época, a ficha técnica ou artística dos filmes era o que menos importava, o que importava mesmo era "ficar" com as menininhas; sim, já "ficávamos", embora a expressão só tenha se popularizado anos depois.
O Valparaiso não era somente cinema, era também uma casa de espetáculos; no carnaval promovia-se animados bailes e havia também shows musicais. O mais notório foi o de Roberto Carlos no auge da Jovem Guarda, que causou enorme congestionamento.
Os que não conseguiram comprar os ingressos para o show, que custavam caro e foram esgotados rapidamente, aglomeraram-se nas imediações com a esperança de ver a chegada ou a saída do rei.
No começo da década de 70 começou o declínio do Valparaiso; Um dos últimos filmes significativos que lá assisti foi "O Exorcista".
A decadência veio rápida e inexorável, o gigante combalido resfolegava, sua grandiosidade era um fardo pesado demais a ser suportado por ele.

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