Cinderela

Um dos primeiros empregos da minha vida foi numa loja de calçados na Rua Teodoro Sampaio, dentro da Galeria Cidade de Pinheiros. Era apenas um menino, adolescente ainda. Além de eventualmente bancar o vendedor, fazia de tudo um pouco, serviços de banco, cobranças, entregas.

Lembro-me de ter atendido um casal de cliente, o qual deduzira ser namorado ou noivo, tal era a forma de carinhos trocados durante todo o tempo que permaneceram na loja:

– “Querido daqui, benzinho e amor dali”. Uma “melação” que só vendo.

O apaixonado presenteou a moça com três pares de calçados, cada um mais caro que o outro. Como de praxe, solicitei os dados para cadastro de cliente que prontamente foi preenchido. O homem pagou a despesa à vista, sem pechinchar.

Venda normal e corriqueira, sem maiores detalhes, não fosse o fato de que no dia seguinte a bela mulher voltou sozinha para devolver um dos pares para a troca, pois apresentava um pequeno defeito.

Como não tinha nem a numeração e nem o modelo em estoque, combinamos que ela retornasse em dois dias que a troca seria efetuada. Passaram-se semanas e não apareceu ninguém para retirar o calçado.

Como manda o bom senso, busquei os dados na ficha cadastral do cliente para comunicar a substituição. Na ficha constava somente o nome e o endereço, não tinha o número do telefone. No mesmo dia segui em direção ao local mencionado para entregar a encomenda, lá pelos lados da Vila Madalena.

Com os calçados em mãos, sentia-me como o príncipe consorte em busca da Cinderela. Após longa caminhada encontrei a rua e o número da residência, um local agradável, casa padrão classe média, muros com pintura nova, portões automáticos. Acionei o interfone:

– “Bom dia, é aqui que mora o Senhor Paulo? Trouxe os sapatos que a mulher dele pediu para trocar.”

Fui atendido por uma jovem senhora que abriu o portão, uma aparência meio que escangalhada que pensara ser a empregada, tava mais para Gata Borralheira do que para uma princesa.

– “Ele é o seu patrão?”

De forma ríspida ela responde:

– “Patrão coisa nenhuma, sou a esposa dele.”

Sem saber mais o que falar permaneci em silêncio por alguns instantes. Percebi o constrangimento que causara àquela mulher. Respirei fundo e tentando consertar a situação soltei:

– “Acho que errei o endereço, peço-lhe desculpas.”

Antes que pudesse desvencilhar-me daquela situação, ela bruscamente tomou o pacote das minhas mãos:

– “Deixe-me ver esses sapatos.”

 Abriu o embrulho, arrancou suas sandálias e tentou calçá-los, mas não lhes serviram, ficaram pequenos.

Ironicamente ela me diz:

– “Olhe aqui garoto, vou ficar com eles para mostrar ao meu marido.”

Sem ao menos pedir licença e sem cerimônias ela fechou o portão na minha cara.

Poucos dias depois ela apareceu na loja muito bem vestida e com os sapatos na sacola. Sem muita conversa pediu para trocá-los por uma numeração maior. Experimentou-os, pegou o pacote e foi embora sem nada dizer.

Ainda hoje pergunto a mim mesmo, teria sido um conto de fadas ou um conto do vigário. Seria mesmo ela a esposa do cliente ou a empregada aplicando um golpe?