Cidade Jardim, o templo do turfe

Mal havia terminado a guerra, a segunda, em 1944, São Paulo tinha uma nova cidade dentro dela: Cidade Jardim, nome feliz do novo hipódromo paulistano. Sua existência datava de apenas 4 anos, no lugar do pioneiro prado da Móoca.
Nos meus 14 anos, em l947, começava a freqüentar a Cidade Jardim como turfista juvenil, levado pelas rédeas do meu pai, Domingos. Não podia apostar, mas torcia muito por um cavalinho do Paraná, recordista dos 1.400 metros, o Caluba. Mestiço de um olho só, mas ganhador como poucos.
Cidade Jardim, com as mesmas três arquibancadas de hoje, mais o paddock, com suas três pistas, duas de areia e uma de grama, era um espetáculo só, mesmo sem corridas. Uma vista panorâmica, sem igual. E de graça.
Naqueles tempos comecei a apreciar, não só as corridas dos puro-sangues, como também as irradiações emocionantes, pelo rádio ou pelos alto-falantes, do hipódromo, de alguns pioneiros da narração, entre eles o Vicente Chieregatti, da rádio América.
E mais tarde, me espelhei no grande locutor da rádio Piratininga, o Otávio Rocha Filho, que marcou época no turfe bandeirante no final dos anos 40 e início dos 50. Hoje, 2007, no tempo da televisão, o narrador impecável é o "monstro" Roberto Casella.
Cidade Jardim foi palco dos grandes puro-sangues, como Gualicho e Adil, os craques que mais me impressionaram. Eram quase imbativeis, campeões dos principais grandes prêmios nacionais. Tão bons que, se permitido fosse, podiam dispensar até o próprio jóquei.
Aliás, por falar em jóquei, nos anos dourados do turfe, décadas de 40 e 50, havia bridões e freios, que não se fazem mais, como os gringos Luiz Gonzales e Francisco Irigoyen; os paranaenses Pierre Vaz, Omário Reichel e Luiz Rigoni. Pierre Vaz, criado no Paraná, era tão famoso que até guarda de trânsito parava o seu automóvel na Ipiranga, na Paulista ou na São João. No início, Pierre temia que fosse multa. Mas os guardas queriam apenas as barbadas de domingo…
Impossível esquecer a São Paulo da Cidade Jardim. Tão impossível quanto o vício contagiante que me tornou, no Paraná, narrador, editor de jornal e revista e cronista de turfe, culminando com o lançamento, em 2006, do meu primeiro livro "Esses Cronistas Super-Heróis e Suas Mancadas Maravilhosas".
Aliás, um livro, modéstia a parte, que tem sensibilizado até inimigos do turfe, porque narra episódios desde 1873 – início das corridas oficiais no Brasil – de modo jocoso, com histórias e casos inéditos, não poupando nem governadores nem os poderosos da época.
Numa dessas histórias, o jornalista Assis Chateaubriand pediu, de presente, um avião ao presidente do Jóckey Club de São Paulo, Roberto Alves de Almeida, que temendo uma campanha difamatória dos Diários Associados, atendeu ao temível alagoano dando não um, mas dois aviões. Chatô agradeceu mandando ampliar a cobertura do hipódromo.
E "Esses Cronistas Super-Heróis e Suas Mancadas Maravilhosas" não poupa a língua, contando 134 anos da história do turfe nacional, e homenageando, principalmente, aquele que foi o mais importante puro-sangue inglês de todos os tempos: o "Filha da Puta".
Hoje a Cidade Jardim, 67 anos depois, continua encantadora, maravilhosa, mesmo nos tempos de "éguas magras" para o turfe brasileiro. Mas justiça seja feita ao "Novo Jóckey", que parece ressuscitar, num grande desafio, as inesquecíveis nostalgias do "Velho Jóckey", graças ao peito, coragem, criatividade do seu robusto e inovador presidente dos tempos modernos, o Marcio Toledo.
E você leitor, se turfista for – provar é preciso -, dos novos ou dos velhos tempos de Cidade Jardim, se curioso estiver pelo meu livro, faça um comentário a respeito deste artigo, se incomodado não se sentir, que terei prazer em lhe enviar, graciosamente, um exemplar.

e-mail do autor: [email protected]