Parece que antes as coisas aconteciam de maneira mais tranquila, com mais naturalidade, e tudo era aproveitado para ser usado com racionalidade, o que hoje chamamos de sustentabilidade. Por exemplo, a água da chuva e boa parte dela era aproveitada para usar em limpezas gerais. Diziam que as nuvens purificavam e a água ficava “destilada” e que poderia ser usada para uso frequente da casa. Recolhia-se, em tambores grandes, a água que era usada para enxaguar utensílios e panelas, muitas das quais eram fabricadas de ferro, de uma coloração escura, as de alumínio eram raras e as canecas eram latas com alças rebitadas.
Tudo era controlado, não existia tanta extravagância e os canteiros das plantações recebiam valas que “sustentavam” por algum tempo uma água que vertia de um represamento artificial regando as plantas.
A chuva parecia que vinha “galopando” no horizonte e os garotos ficavam até o último instante em suas brincadeiras corriqueiras até saírem em disparada rumo as suas casas, esperando que caísse a torrente que era absorvida pela terra de onde saia um cheiro de mato, em um verdadeiro aroma natural.
Passada a chuva, juntava um bando de moleques buscando aventura nas ruas enlameadas, represando parte da água que buscava as ribanceiras para desaguar em algum riacho, sendo que o mais próximo do lugarejo era o Riacho do Curtume que às vezes transbordava em suas margens criando pequena várzea retida por uma mata ciliar antes de desaguar no Rio Pinheiros. Saíamos com peneiras nas mãos a recolher pequenos filhotes aquáticos que muitas vezes não era somente peixes, mas também girinos “dando de cara” com sapos cururus e algumas cobras aquáticas.
Sempre houve algum estrago ocasionado pela intensidade das chuvas e nas margens dos pequenos rios, mas nada que comprometessem e fizessem tanto destruição, pois se evitava fixar-se muito próximo ao leito destes afluentes.
Na atualidade vemos casas vizinhas aos córregos para deles se aproveitarem como latrinas, cloacas a céu aberto, e, que por sua vez, trazem animais peçonhentos e transmissores de doenças. Os tempos são outros, a chuva deságua mais forte no asfalto e nas margens dos rios não há mais mata, não se sente mais cheiro de mato, pois não houve cuidado com um plano diretor descente de ocupação racional da cidade e as crianças “brincam” com o perigo das águas contaminadas que trazem doenças transmissíveis por leptospirose e o lixo espalha-se com as infecções. O Rio Pinheiros está com uma gosma negra, morto e fétido e o ar invade São Paulo com cheiro de azedume e os trens da CPTM trafegam em sua margem e a vida continua contínua!