Catando balão

Uma das coisas que mais gostava de fazer era catar balão. Tudo começou quando eu tinha meus 14 anos. Corria atrás sem que meu pai soubesse, pois era uma coisa que ele recomendava a não fazer, devido a muita encrenca, coisa que era normal quando tinha muito moleque correndo atrás daquele negócio com fogo, e que ninguém deixava o outro pegar inteiro, pois normalmente o balão acabava sendo rasgado, devido à vontade de todos de tê-lo para si. Sem falar a chuva de pedras que eram arremessadas quando da descida do balão.<br>Eu tinha minhas manhas na arte de pegar na boca do bicho quando ele descia. Sabia a hora certa de dar o chamado pulo do gato, pois jogava no gol da molecada, daqueles gols mesmo feitos de dois tijolos, um em cada lado. Era muito difícil não ser eu o primeiro a botar a duas mãos na boca do balão e trazê-lo ao chão. Só que ele ficava todo rasgado, pois todos queriam ser donos dele.<br>Uma vez minha irmã foi a uma festa da kopenhagem, fábrica de chocolates em que ela trabalhava. Seu Davi, dono da fábrica, fazia todos os anos uma festa em agradecimento aos funcionários terem trabalhado toda a semana santa, inclusive na sexta feira, para dar conta de todos os pedidos das lojas exclusivas da fábrica.<br>E naquele maio de 1957 a festa foi no ginásio do Ibirapuera, recém inaugurado.<br>Estávamos todos na porta do ginásio esperando abrir o portão quando vem um balão pião de 12 folhas girando e caindo praticamente apagado. Falei pra minha irmã: “entra que daqui a pouco to aí”. E fui atrás. Ele estava caindo na Rua Jundiaí com a Brigadeiro Luiz Antonio. Uma senhora barra pesada, pois ali tinham os donos do pedaço e um estranho que se metia apanhava. Eu não tava nem aí. Dei de ombros.<br>Pensei comigo, pego esse bicho na manha, ao ver os que estavam de olho pra cima. Quando ele descia numa altura que dava pé, e eu com meus 1,71 de altura (alto para a época) subi como um goleiro que intercepta uma bola centrada da ponta esquerda ou direita, e gritei: é meu!<br>Quando o balão desceu e, eu com ele na mão, foi aquela rasgada, de papel de seda cheio de fuligem. Filho disso, filho daquilo, você rasgou o balão que era da gente.<br>Foi feito aquele cerco e eu ia apanhar pra burro. Foi quando um moreno esticou o pescoço e me viu direito. Quando já começava a tomar as primeiras bordoadas e tentava me esquivar. Uma voz ecoou bem alto. Ei turma, esse cara é meu amigo!<br>Era Chicuta (Francisco), que morava nos fundos da minha casa cinco anos antes no Brooklin Novo. A pancadaria que ia começar parou. Os caras não estavam muito contentes por eu ser amigo de Chicuta, mas a maioria veio me dar a mão, mas com aquela recomendação: “ô cara, você é bem “forgado”, eim?”<br>Aí o papo rolou suave por um bom tempo, e uns seis caras ficaram batendo papo comigo. Ai é que me lembrei que tinha ido mesmo era numa festa. E pela gentileza de não ir pra casa todo amarrotado, levei-os junto de mim. Comeram e beberam como se nunca tivessem visto doces e salgados na vida.<br>Outra vez, foi perto da minha casa, era noite e bem tarde, por perto da meia noite. Mês de junho, caindo aquela neblina em que não se via quase nada, a não ser a tocha do balão que vinha já piscante querendo apagar. Pelo lado do brooklin ia eu e Elisio, menor do que eu em tamanho e idade, eu 18 anos e ele uns 15. Tinha o córrego da traição que dividia o Brooklin com a Vila Olímpia. Do lado da Vila, um bando de gente correndo atrás. Tudo fazia crer que o balão ia cair do lado da Vila Olímpia, assim mesmo, eu e Elisio fomos atrás. Pensei se cair do lado de cá do Rio eu pego nem que for preciso empurrar o Elisio. Do lado de cá aquele silêncio, eu e o Elisio correndo. Do lado da Vila Olímpia uma gritaria de todos que corriam atrás do balão. Já estávamos perto da Rua Funchal, quando vi umas sombras logo percebi que eram mourões com cerca de arame farpado.<br>Quando cheguei bem perto me abaixei a passei, Elisio não, coitado, ficou com o peito parado na cerca sangrando. Não quis nem saber, o balão caiu do meu lado e peguei-o sozinho sem ninguém para encher o saco, do outro lado um monte de palavrões daqueles que estavam do lado errado do rio. Já com o balão sem tocha, embrulhadinho, fui ver o que tinha acontecido com o Elisio: “e aí garoto, tudo bem, contigo?”<br>Já no Brooklin aconteceu quase o mesmo que na Brigadeiro. O balão estava caindo no campo do Texas, rua do mesmo nome. Ali era meu território. Sabia de todos os atalhos. Mas era uma noite muito escura, iluminação pública naquele ano de 1957, nem pensar. Quem estava atrás do balão era a turma dos garotos do Brejo Alegre, time de futebol que levava o nome da rua mais popular do Brooklin. E outra vez o pulo do gato, e o grito de, “é meu!”. Quando as primeiras porradas estavam para ser dadas, gritei: “mana! Sou eu, Mario!” O “crioulo” teve que vir bem próximo de mim para conferir tamanha era a escuridão. Eu o via por causa dos dentes bem branquinhos que tinha.<br>No Itaim quem era vidrado em correr atrás de balão era Vadinho, ou, Osvaldo Caminhão. Esse apelido lhe foi dado por ter um caminhão tamanho médio, que era sua bicicleta. Aonde ele ia seu caminhão estava junto. Ele foi ponta esquerda do Palmeiras naquele ano de 1957, quando o time do Parque Antártica estava no apogeu da merda, quase indo para a segunda divisão. Ai se não fosse o XV de Piracicaba!<br>Também atrás de balão ele ia com seu caminhão. Tinha seus escudeiros que iam junto. Um ficava na carroçaria e às vezes o caminhão parava bem debaixo de onde o balão estava caindo e não tinham dúvidas de que a “peça valiosa” era dele ou da equipe de baloeiros, que ele presidia. E ai daquele que fora visto com uma pedra na mão. Era encrenca na certa. E como gostava de encrenca aquele cara.<br>Ainda em 1957 era um domingo já agonizante, quando antes de ir dormir e fazer aquele xixi para ir mais leve para a cama, fui dar uma olhada para ver se algum balão ainda estava no ar. Eis que vindo da direção da Vila Mariana uma grande balão “mofada” (almofada) vinha com suas brasas já se decompondo. Corri sem abrir o portão, num pulo só já estava na rua. O Balão caiu numa casa da Rua Julio Diniz, quando entrei pelo quintal adentro, o pouco que tinha de brasa o queimou na porta da cozinha da casa.<br>O barulho da ação e o latido do cachorro do vizinho chamou atenção do dono da casa, que saiu de cueca e, eu já pulando o muro da frente uns vinte metros de distância dele, que com uma espingarda de chumbinho dava tiros para cima. Ainda bem que não era espingarda de dar tiros de sal, por que senão ele mandava era em cima de mim, e eu ia dormir com o glúteo salgado e dolorido até o dia seguinte.<br>Em 1958 foi talvez o ano que melhor tivemos para a soltura de balão e correr atrás de outros, devido à copa do mundo, em que fomos campeões pela primeira vez. Já nos anos 1960 com o desenvolvimento e as inúmeras indústrias que foram surgindo foi feita uma forte campanha contra a soltura de balões.<br>Em 1968 voltava da casa da minha namorada (hoje minha esposa) em pleno dia de são João quando já não se fazia mais aquelas lindas festas de dez anos antes. Quando estava no vale do Anhangabaú, para pegar o ônibus 152 Vila Olímpia, às 22 horas, vejo muita gente olhando pra cima. Um grande balão estava caindo em pleno centro da cidade. Pensei, acho que vou relembrar anos antes, em que eu era o rei da pegada. Pesquisando o local que ele ia cair vi que não passava da escadaria da Rua Formosa para o Vale, onde tinha os pontos de ônibus que iam para a zona Oeste.<br>Era o único problema, pois na escadaria não dava para dar pelo menos dois passos para o impulso da subida, Tinha que pular parado. Mesmo assim arrisquei. Não tinha moleques, somente adultos e pelo jeito das fisionomias não eram do negócio de catar balão. Nos dois lados tinha uma área de um metro quadrado, um patamar onde muita gente se postou para não ficar nos degraus da escada. Para o azar de quem estava nos dois lados, o balão foi cair justamente no meio da escada.<br>Fiquei atento como naquele dia na Rua Jundiaí, quando vi que estava na hora, pulei, e com as duas mãos, na boca do balão e gritei: “é meu!” Educadamente o povo do Anhangabaú não rasgou o balão, que veio inteirinho para casa onde ainda tinha uma fogueira, naquele dia 24 de junho, em que se comemorava mais um aniversário de dona Orlinda, minha mãe de criação. Pronto, lá foi o Zé fazer a tocha como ele estava acostumado a caprichar. O cara era tão bom nesse negócio, que apenas com a vela parafinada ele fazia, dispensando até o breu. Mal foi acesa a tocha e ele com força de quem queria subir já forçava, foi apenas àquela torção e ele subiu girando como fazia todos os balões charutos. Parecia aquele pião quando girava ao perder a força depois que a fieira tinha se desenrolado. No céu apenas o facho de luz da tocha, daquele belo charuto de mais de 60 folhas, o último balão que peguei na vida.<br>Bons tempos aqueles, que ficaram na saudade.<br><br>e-mail do autor: [email protected]