Cassetines de Juan

Minha avó materna administrava pensão próxima à garagem dos bondes na Alameda Glete. Tanto os fundos da casa como os porões eram alugados aos trabalhadores que tanto eram brasileiros natos como estrangeiros.

D. Zezé, um prodígio em manter a enorme casa funcionando a todo vapor e, ainda, lavava e passava as roupas de alguns inquilinos. Nem todos podiam pagar por esses serviços, pois a carestia era grande e usar roupas limpas e engomadas era um luxo naquele tempo.

Familiares e vizinhos reconheciam a fantástica capacidade de trabalho dela e, além disso, pelo fato de raramente perder a calma ante a estafante lida. Acredito que o foco no trabalho a impedia de perder a paciência diante dos problemas. Mas um certo dia, totalmente alterada ou mesmo enfurecida, subiu ao segundo andar do sobradão e foi desabafar com a filha mais velha que lá morava. Minha tia muito assustada perguntou o motivo daquele descontrole, e ela respondeu, utilizando um termo "pesado" para ela e que raras vezes utilizou em sua vida.

– "Aquele espanhol, o tal de Juan, aquele "cachorro", veio para o meu lado gritando: Dona Cecé, dona Cecé, y los mios cassetines?" (imitando o sotaque, e a tradução: D. Zezé, e as minhas meias*?).

– Aí eu saí depressa e deixei o louco falando sozinho, pois não sei patavina de cassetines!

Bem mais tarde, conversando com outras pessoas sobre o incidente, ela foi inteirada do que se tratava e acabou dando umas boas risadas daquilo tudo.

(*) = do espanhol, calcetín/calcetines que significa meia(s).

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