Casando de cromo alemão

Imaginava casar com um par de calçados de cromo alemão. Vislumbrei, ao passear pelas ruas do centro, os sapatos com que sempre sonhara, na vitrina de uma luxuosa casa de calçados. Um par preto, cromo alemão legítimo, combinariam perfeitamente com meu terno preto risca-de-giz, e calça negral de moda elegante. Mesmo sabendo que os sonhos da padaria é que são baratos, arrisquei. No jogo do bicho ganhei. Cento e cinquenta cruzeiros (Cz$150.00) em centena seca no primeiro prêmio. Guardei para o grande dia.

Enfim o dia chegara… o grande dia… o marco, a passagem para a maturidade. Sim, aos vinte e três anos, minha atual esposa estava pronta. Tudo bordado em ponto cruz. O lençol de cetim, branco, que a mãe ajudara a bordar… a roupa da primeira noite tinha de ser branca. Duas dúzias de guardanapos, todos com bico de crochê. Três cobertores, um bom e dois mais ou menos. Quatro jogos de banho. Era o suficiente. Foram revisar o enxoval, guardados no baú havia três anos.

O espanto das duas, mãe e filha, ao abrirem o baú, foi indescritível, todo o pertence do enxoval estava corroído pelos bichos… e uma boneca de pano de bruços em cima das peças.

Todo aquele cenário se apossara da sua noite de sono.

O dia sequer amanhecera. Um dia frio, esquisito. Nem parecia janeiro. Os olhos ardiam, mas era inevitável. A noite em claro, as lágrimas debaixo do travesseiro. Que poderia esperar depois de relembrar a cada momento a cena dos bichos a revelar-se nos seus pensamentos?

Chorando, ligou pra mim, o noivo, apressada.
– O que está havendo? Respondi espantado. O susto me roubara o silêncio. Ela quis gritar, mas as cordas vocais pareciam atadas. Estava cheio de pavor e incompreensão.
– O que você vai fazer? Balbuciei inquisitivo a ela.
– Minha mãe já resolveu. Chamou uma senhora, conhecida dela, Madame Soraia, ela tem um centro de umbanda em São Caetano do Sul. Vai examinar o enxoval e depois faz um trabalho forte, para limpar tudo. Só necessito arrumar os Cz$ 150,00… aaahhh… sabe, ela pediu a sua presença em casa, hoje à noite. Disse que muito importante estarmos juntos no trabalho, na hora de abrir o baú.

O trabalho seria feito na cozinha, cujo cômodo ficava entre a lavanderia e a sala de visita, separados por duas portas, a que adentrava no interior da sala e a de mola com uma tela de nylon, protetora de mosquitos, separando a lavanderia.

A porta abriu-se abruptamente. A mulher entrou. Olhos esbugalhados, mãos tremendo, incontroláveis. A mulher tinha aparência masculinizada. Cabelos espetados em topete imitando uma fina crista. Corpo coberto por manto negro, com fundo em cetim vermelho. O mau cheiro, vindo do incensório, encheu o ambiente.

Um silêncio repentino tomou conta da cozinha. Todos se voltaram para ela, que com voz rouca e estridente se manifestou:
– Sou o Exu Galo Preto, rei do catimbó.

Em seguida chamou os dois para ficarmos juntos, de mãos dadas defronte ao baú que ele abriria. Antes lhe acenderam um extenso e vistoso charuto cubano. Com as roupas do enxoval expostas, o espírito maligno, com a mão esquerda, benzia em gestos bruscos as alianças do noivado, colocadas na palma da mão direita, envoltas em bichos que se mexiam, pulavam. Soltava golfada de fumaça do extenso charuto em cima dos bichos. Por fim apagou o charuto na palma da mão direita, num gesto mágico sem ferir-se, terminando o ritual. Por insistência na pergunta da noiva, disse que foi uma loira que havia feito o trabalho, mas não declinaria o nome.

Prometeu felicidades a nós, se os inimigos ocultos não viessem novamente, com renovados despachos ou macumbas. Com generoso café encerrou-se a reunião, pagando-se o preço estabelecido, cento e cinquenta cruzeiros.

Durante a semana, exatamente até sete dias após o ritual, minha noiva era outra mulher, serena, compreensiva, dinâmica, calma, amorosa e entusiasmada, tanto que resolveu limpar o baú, lavar e passar as roupas do enxoval, pensando no casamento. Teve uma surpresa. Descobriu que os bichinhos do baú eram bicho-palha, espécime dos fásmidos, estavam no enchimento de arroz da boneca de pano, que ela esquecera, sua avó materna a presenteara na infância, e ela guardara desde então no baú.

Feita a limpeza, despachada a boneca no lixo, com seu enchimento estragado, terminou o mal feito, descobriu-se que Galo Preto era impostor, Dona Soraia ganhou cento e cinquenta cruzeiros.

Casamos meses depois, em maio, no antigo mês das noivas… e após a entrada triunfal, na Noite de Núpcias, voltei a pensar interrogativo… O espírito enganador sabe perfeitamente a quem se dirige, mas, trai-se de tantos modos que é preciso ser cego para se deixar iludir. Só enganam os que se deixam enganar, porém, na igreja ingressei ostentando um par de mocasim comum…

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