"Cartas ao Papai Noel dos Correios"

Alguns anos atrás, impulsionada pelas propagandas na TV, pedi a minha irmã que pegasse duas ou três cartinhas endereçadas ao Papai Noel dos Correios, já que ela pegaria para ela, para presentearmos as crianças no Natal. Ela, por intuição, escolheu cartas do mesmo bairro para facilitar no dia da entrega. Compramos presentes para as crianças e dezenas de outros para os irmãos, pois tínhamos certeza que cada um teria pelo menos três ou quatros irmãos.

Quando você pega cartas destas crianças, de lugares pobres da periferia, é só lágrimas ao lê-las. Pedem desde um panetone, peru, caixa de bis, um tênis novo, pois nunca tiveram um, só vestem velhos e usados.

Rumo ao Jardim Santa Ângela, periferia de São Paulo, sei lá como, mas chegamos. Para cada cartinha deixávamos um lindo presente para eles e também para os irmãos, bonecas que falam, patins, patinete, carrinhos de controle, tratores etc… E para a família deixávamos uma caixa de papelão forrada de papel colorido com guloseimas, pêssegos em calda, panetone, goiabada, balas, chicletes, pirulitos, doces diversos.

Voltamos abaladas com tanta pobreza, mas felizes pensando em fazer tudo outra vez no ano seguinte. O carteiro do bairro onde trabalho, depois de saber desta história, se ofereceu para ajudar. Pedi que ele pegasse umas dez cartas para eu presentear as crianças e fazer o Natal do Papai Noel dos Correios.

Planejei durante o ano todo, comprando bons brinquedos em ofertas, minha neta faz aniversário em novembro, então ela doou muitos brinquedos que ganhou e mais os do dia das crianças em outubro. Assim juntei muitos brinquedos, no meio tinha patinete, patins, bicicleta, computador, vídeo game, TV, carrinhos de bonecas, barbies, etc… Também montei as cestas de guloseimas para as famílias das crianças das cartinhas. Fiz umas cem sacolinhas com balas, pirulitos, chicletes e um brinde para presentear as crianças vizinhas que se aproximassem.

Chegou o dia e gentilmente o motorista terceirizado do Correio, que tem sua Van própria para os serviços, se ofereceu para entregar os presentes. Qual foi a minha surpresa, quando ele chegou vestido de Papai Noel com a Van toda enfeitada, tocando músicas de Natal no auto falante (montado pelo seu filho). Chegávamos próximos às casas e o carteiro ia à frente e chamava a criança pelo nome e dizia:
-“Esta cartinha é sua? Pois é o papai Noel veio!”
E assim foi toda amanhã deste dia.

Foram sorrisos e olhares inesquecíveis, lágrimas minhas, do carteiro e do nosso Papai Noel se misturava aos abraços e beijos e ao muito obrigado da maioria das crianças. Voltamos exaustos e felizes. Tudo combinado para o próximo ano. E assim fizemos com mais cartas, mais brinquedos e mais doações.

Só que a decepção chegou cedo demais, o carteiro me comunicou que os Correios, que já proibiam presentear as crianças pessoalmente como era sabido por nós, estavam mais vigilantes e eles corriam o risco de perder o emprego se continuassem.

O regulamento dos Correios é: preencher um formulário na Central, pegar uma carta, comprar o presente e levá-lo na agência para ser entregue a criança por sedex na semana do Natal. Pois bem moro em um condomínio de padrão e fiquei decepcionada quando uma vizinha mostrou uma boneca docinho que a filha de seis anos pediu na cartinha escrita para o Papai Noel e o Correio entregou.

Talvez não precisasse escrever mais nada… Todos entenderam… Quantas crianças de boa classe social ganham estes brinquedos? Não consigo entender que burocracia é esta que os correios implantaram para diminuir cada vez mais a entrega de presentes para as simples e pobres crianças sofridas da periferia de São Paulo?

Deixe as pessoas pegarem suas cartinhas, levarem seus presentes a estas crianças que com certeza será o único daquele Natal. Isto sem querer falar, mas falando dos presentes mais caros que chegam e que os funcionários presenteiam seus próprios filhos e ninguém fica sabendo. Nestes dois últimos Natais não peguei nenhuma cartinha, não posso compartilhar com esta falta de sanidade deste órgão incompetente. Não sou e jamais serei conivente com esta burocracia.

Lógico que faço as minhas prazerosas doações pessoalmente, como já postei neste site "Sorrizo de Criança", mas acredito que nunca mais presenciarei Natais iguais aqueles.Tenho certeza que este dia era o melhor dia do ano para estas crianças, eu jamais esquecerei tanta alegria em tantos olhares de tantas cores e tamanhos diferentes.

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