Carta à Mário

São Paulo, 9 de novembro de 2012.

Meu bom amigo Mário de Andrade, cordiais saudações. Não sei por onde você anda desde que nos deixou em 45. Fique sabendo, Mário, que achamos uma desfeita de sua parte, uma verdadeira “malcriação”, deixar-nos órfãos de sua inteligência, de sua erudição e de sua condução pelos “meandricos” caminhos da cultura, assim, sem mais nem menos, sem avisar ninguém… Onde já se viu? Justamente você, fina flor do homem educado de São Paulo, nem esperou eu crescer, me tornar adulto!<br><br>A abertura dessa carta com o acaciano "Cordiais Saudações" me remeteu à música de Noel Rosa, grande compositor carioca de sambas; claro que você não o conheceu pessoalmente, pois ele foi outro que também foi embora muito cedo, com 26 anos, em 1936, vítima da phtysica. Diferentemente de você, desde os 18 anos de idade, sua morte esteve anunciada; vida desregrada, muita cerveja Cascatinha, muita pinga lisa, muitos rabos-de-galo, muito mulherio da Lapa, da Taverna da Glória, dos bordéis do Mangue, sabes como é, e além do mais, com uma deformidade na mecânica da mandíbula que o impedia de alimentar-se com sólidos, um jovem mirrado, fraco, tuberculoso e frequentemente com fome… <br><br>Estou enviando-lhe a letra de um samba do Noel em estilo carta, onde você vai notar sua jocosidade, sua maneira de malandrear os versos e… ôôô Ignacio! Mas quem você pensa que é para indicar qualidades ou defeitos de uma música para o Mário, mestre do Conservatório Dramático da São João, que audácia não é? Mil desculpas, meu amigo! Segue a letra:<br><br>(Cordiais saudações…)<br><br>Estimo que este mal traçado samba<br>Em estilo rude,<br>Na intimidade<br>Vá te encontrar gozando saúde<br>Na mais completa felicidade<br>(Junto dos teus, confio em Deus)<br><br>Em vão te procurei,<br>Notícias tuas não encontrei,<br>Eu hoje sinto saudades<br>Daqueles dez mil réis que eu te emprestei.<br>Beijinhos no cachorrinho,<br>Muitos abraços no passarinho,<br>Um chute na empregada<br>Porque já se acabou o meu carinho<br><br>A vida cá em casa<br>Está horrível<br>Ando empenhado<br>Nas mãos de um judeu.<br>O meu coração vive amargurado<br>Pois minha sogra ainda não morreu<br>(Tomou veneno, e quem pagou fui eu)<br><br>Sem mais, para acabar,<br>Um grande abraço queira aceitar<br>De alguém que está com fome<br>Atrás de algum convite pra jantar<br>Espero que notes bem:<br>Estou agora sem um vintém<br>Podendo, manda-me algum.<br>Rio, sete de setembro de trinta e um<br><br>(Responde que eu pago o selo…)<br><br>De verdade verdadeira, eu nem sei por que transcrevi a letra desse samba para você; claro que você já deve ter encontrado Noel aí onde você, imagino, deve estar, junto com um monte de gente da mais fina qualidade, tanto musical quanto literária: Olavo Bilac, Bastos Tigre, Coelho Netto, Brancura, Carlos Cachaça, Geraldo Pereira, Donga, Geraldo Filme, João da Bahiana (por favor, peça que Tia Ciata me abençoe), Madame Satã e João Cândido (porque não? Claro que os dois não são literatos, mas são grandes protagonistas), Monteiro Lobato, Guilherme de Almeida, Frei José Maurício, Pixinguinha, Mestre Bimba, Jorge Amado, Euclides da Cunha (tão infeliz, coitado!), Zeca e Zéquinha do Patrocínio, Machadão (de Assis, óbvio!), Drummond, um montão de gente desse naipe. Ah! Sim, ia me esquecendo: Lembranças ao Carlos Gomes; diga a ele que a protofonia de seu II Guarany continua a ser usada como prefixo do programa de rádio menos ouvido em todo o mundo, um tal de "A Voz do Brasil", resquício de um tempo da ditadura getulista, coisa que você conheceu perfeitamente…<br><br>Um último favor, se não for incômodo ou atrapalhar alguma coisa que você esteja fazendo: se for possível, procure entre os eguns, meus ascendentes africanos, meus avós nascidos aqui em Pindorama, meu bisavô paterno, cativo e Voluntário da Pátria à força e diga-lhes que quero estar junto deles, espero que demore, mas quero estar, verdadeiramente… Saravá!<br><br>Estou enviando nessas poucas linhas algumas notícias da nossa São Paulo. Evidente que você, dada sua posição, deve conhecer nossa situação melhor que nós mesmos, melhor que nossos governantes, tens uma visão e uma compreensão privilegiada de nossos problemas e de nossas benesses ou coisas boas. A cidade vai evoluindo por inércia, não há como impor-lhe freio, criou vida própria. O pessoal do Estadão, além de jornalistas, formou também futebolistas, um deles grande amigo seu, o Luizinho Mesquita, ponta direita do São Paulo Futebol Clube nos anos 30 e 40, portanto, por osmose, você deve conhecer alguma coisa de futebol, talvez um pouco de futebol dos dias atuais: um jogador da Seleção, Vampeta, criou uma frase famosa: "Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo bola…”. O mesmo está acontecendo com nossa cidade. As pessoas pensam que a governam e ela finge que é governada. “Non Ducor Duco”, entendeu não é? <br><br>Não existe “Plano Diretor” que a governe, que a dome. São Paulo é indomável, se autogoverna, se autopremia, se autopune. Atualmente, a cidade passa por uma revolução, não cultural, mas no campo da Segurança Pública, com “gangues” à solta, crime organizado, corrupção braba. Mas, é certo que ela vai safar-se dessa, vai se virar, dar um jeito… não será a primeira vez, São Paulo é orgânica, um ser vivo…<br><br>O panorama cultural é que está uma lástima: pintores que não pintam, escultores que não esculpem, músicos que não conhecem música, compositores que não compõem, pianistas que não “pianam”, jornalistas que não “jornalistam”, escritores que não escrevem, cineastas que não filmam, atores e modelos que não atuam nem modelam, dramaturgos que não “dramaturgam” e que esperam salvar o planeta colocando palavrões na boca de galãs de TV que entram e saem de “coxias” em meio à névoa provocada por gelo seco (efeitos especiais).<br><br>Reclamações “mils”: "o povo de São Paulo não nos merece, não tem capacidade de entender as poderosas mensagens que colocamos em nossos temas e textos teatrais". A televisão está como a voz do Brasil no rádio: – Desligue depressa!… Demorou… Vamos precisar desinfetar o cérebro… <br><br>Mário, espero não ter tomado em demasia seu tempo e peço desculpas por entrar na sua intimidade pedindo favores, falando de coisas (ou cousas), de pessoas, que talvez nem sejam de seu interesse, embora você tenha sido um homem do Renascimento em pleno século XX, e principalmente por chamá-lo de amigo, não estou com essa bola toda; quando você tomou o seu último bonde eu tinha cinco anos e não tinha a menor noção de quem você era; você não esperou que eu crescesse, que aprendesse sobre você, eu e todos de minha geração, você sempre apressado, ah, paulista, paulista! Não corra… Mas, mesmo assim… Um abraço deste seu amigo (insisto), espero conhecê-lo pessoalmente, tão logo chegue aí onde você está. Irei procurá-lo. Chove e está frio em nossa Paulicéia.<br><br>PS: As variações nos tempos verbais, nas funções pronominais, nos pronomes, advérbios e que tais são propositais. Eu sei que você não vai estranhar. São Paulo, aos 9 de Novembro de 2012.<br><br>Joaquim Ignácio, seu criado, obrigado.<br><br><br>E-mail: [email protected]