Final do século retrasado. Potenza, Itália. Minha avó, decepcionada e desiludida por ter seu dote de casamento desperdiçado por seu padrasto, resolve, aos dezesseis anos, fugir para Nápoles. Num ato de coragem, embarca clandestina e ainda menor de idade em um navio, perfazendo uma longa e difícil viagem para o Brasil. Mais precisamente para o Rio de Janeiro (onde já havia morado com seus pais, ainda na época da mudança do Império para a República), indo ao encontro de sua tia, que supostamente residia naquela cidade.
Pouco depois de chegar à capital carioca, descobre por algumas vizinhas que sua anciã parenta havia se mudado para São Paulo, capital.
Sozinha e assustada, segue para esta Paulicéia, para o endereço que recebera no Rio e, no tempo dos lampiões de gás, se dirige para a Rua da Graça, Bom Retiro, onde a parenta morava. São Paulo naquela época começava a aceitar imigrantes que se mudavam da Itália, fugindo da primeira guerra mundial.
Moça religiosa e de bons princípios, dotada de grande beleza, logo passou a ser notada pelos rapazes solteiros da cidade. Recatada e sabedora da responsabilidade que tinha com sua vida, nunca cedeu aos caprichos dos moços que a cortejavam.
Seus passeios e diversões eram a igreja católica, o mercado de compras e desses lugares sempre retornava religiosamente para a casa de sua tia. Raramente saía para se divertir, a não ser eventualmente em alguns passeios dominicais que, acompanhada de sua tia, fazia no Parque da Luz, logradouro perto de sua casa.
Foi num desses passeios nos jardins da Luz, próximo ao coreto, que meu avô a viu pela primeira vez. Como num conto de fadas, podemos dizer que foi amor à primeira vista. Apaixonou-se… e como um detetive buscou descobrir o endereço da linda jovem que estava decidido a conhecer.
Logo ficou sabendo o endereço da bela Carolina, e dirigiu-se para a Rua da Graça. Ao bater palmas no portão foi atendido pela jovem (na época ainda com pouco mais de quatorze anos) e apressou-se em dizer que ali estava porque iria se casar com ela. E terminou a frase com um sorriso. A ainda menina Carolina notou, no sorriso, que lhe faltava um dente, e disse que antes que pretendesse falar com ela, procurasse um dentista e colocasse o dente que estava faltando.
Tempos de grande dificuldade, São Paulo iniciando a crescer. Tudo era caro. Mas o apaixonado rapaz não desistiu. Trabalhou, procurou o dentista, e após o implante foi procurar Carolina, e novamente fez a proposta.
Casaram-se e foram felizes, estabelecendo uma família que, além do casal, constou com mais sete filhos criados até a idade adulta…
A vida não foi exatamente um conto de fadas, muitos percalços como perdas de dois filhos mortos ainda bebês pelo tifo e febre amarela, além de uma viuvez precoce de Carolina, que perdeu seu amado Ângelo em 1928.
Mas aqui estamos, seus descendentes, estabelecidos ainda nesta capital para testemunhar mais esta linda história que aqui, neste município, se desenrolou.
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