A igreja católica ainda não adotava as festividades do Carnaval e de como ele era comemorado pelas pessoas. Entendia como uma festa demoníaca, impura e profana contra as leis divinas. Mesmo assim, meu pai nos ensinou que ela era uma festa alegre e de origem desconhecida. Dizia que os escravos a trouxeram para as lavouras e depois para a cidade e ao som dos seus batuques deram origem ao samba. Uma explicação simples, mas que para nós era mais do que suficiente. Contava que era assim que eles cantavam a sua vida, seu ritmo dançante e demonstravam a alegria contagiante de seu povo. Encarando desta forma onde estaria então a maldade que geraria o pecado! Certo ou errado foi assim que recebemos as primeiras orientações do que era o Carnaval na nossa cidade, mais precisamente em nosso bairro.
Aos poucos papai ia desenvolvendo estes conceitos e nos estimulava a esperar a data com alegria, com respeito, sem medo e sem pecado. Ainda recordo dos bailes de Carnaval que ele proporcionava para nós e toda meninada da rua e proximidades. Minha casa tinha uma varanda grande e aberta no andar de cima e era lá que ele colocava o som para atingir as ruas de uma quase encruzilhada, onde seria o grande baile.
Tínhamos horários para começar e terminar. Não faltavam os confetes e as serpentinas, além do lança-perfume (naquela época não imaginávamos qual era seu perigo, nem meu pai e por isso nos deixava usar). As músicas eram as marchinhas do seu tempo gravadas em fitas ou discos, não lembro exatamente como o som chegava à rua, mas lembro que meu pai fazia a comunicação com toda turma pelo alto falante. A lotação da rua era completa, pulávamos e dançávamos muito, sem brigas e sem maldade, lá reinava apenas alegria ao som das famosas marchinhas de Carnaval.
Os padres que reinavam na Capelinha Nossa Senhora de Fátima e São João Batista, não gostavam nem um pouco desta atitude de meu pai e ficavam, neste período, fazendo retiro. Depois, nos sermões das missas seguintes, criticavam dizendo que alguns paroquianos estimulavam o pecado livremente aos católicos do bairro. Meu pai não ligava e continuava assistindo a missa com sua fé e no ano seguinte repetia a festa ou então nos levava junto com nossos amigos da rua para dançar no salão do Cine Penha Palace ou então no Clube Esportivo da Penha e lá nos divertíamos a beça, com fantasias feitas pela minha mãe e que sabia improvisar muito bem.
A sociedade paulistana comemorava também seu Carnaval, mas sei que foi difícil a aceitação da festa carnavalesca que os negros faziam, por isso esta comunidade foi para periferia da cidade desenvolver sua cultura e tiveram muito sucesso. Tanto é que o bairro da Barra Funda teve o primeiro reduto negro da cidade de São Paulo, eles desfilavam de camisa verde e calça branca e aí surge o embrião, que é hoje da Escola de Samba Camisa Verde e Branco.
Se eu estiver errada que me corrijam. O samba paulistano com muita imaginação, sonhos, amor e alegria desenvolveu sua musicalidade baseada em uma população operária que montava seus cordões e iam para as ruas para alegrar a todos que quisessem participar da festa carnavalesca. O Carnaval paulistano crescia com o tempo, então foi criada a Anhembi Turismo e que hoje é a São Paulo Turismo, que ficou responsável por toda transformação que o Carnaval paulistano passou. As mais lindas escolas de samba foram surgindo enfeitando e percorrendo importantes ruas da nossa cidade, desde o centro até o Ibirapuera.
Hoje temos um lugar muito mais apropriado: o Sambódromo do Anhembi, um local exclusivo para esta festa importante para a população paulistana apreciar, de forma mais confortável, o desfile de todas as escolas de samba.
Modernidade e muita beleza têm o Carnaval de hoje, mas nas minhas lembranças ele continua marcado pelos confetes, serpentinas e o lança-perfume. Alicerçado no Carnaval de Rua, dos salões, dos clubes da cidade e das marchinhas dos carnavais de outrora. Foram estes os momentos vividos por mim na fase de criança e da adolescência, nos dias da folia. É como um filme que posso projetar sempre que tenho saudades e relembrar os antigos carnavais de São Paulo. Que o Carnaval de 2013 tenha alegria, respeito e muito divertimento para todos.
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