Cardápio imutável

No início dos anos 60 morávamos na Rua José Maria Lisboa, entre a Alameda Casa Branca e Padre João Manoel. Em nossa casa os cuidados frequentes dos pais em propiciar uma alimentação saudável. Meu pai muito exagerado nas compras trazia quase tudo em caixas, tanto frutas como verduras; ele afirmava que a despensa cheia era a maior benção que uma família podia ter. Ele agradecia a Deus por ser um bom provedor à família. Minha mãe se esmerava na cozinha para utilizar toda aquela grande quantidade de víveres.

Embora existisse a fartura e a diversidade na mesa todos os dias, existia um garoto problemático na casa que insistia em refeições muito peculiares, resistindo à pressão que a educação dos pais impunha. Obviamente eu era o artista que, dia sim e o outro também, só queria consumir a sofisticada mistura amarela. Podia ser sofisticada ou exótica, mas não era nem um pouco cara. Consistia em um bom prato de arroz branco com dois ovos fritos bem moles que, furados faziam a minha alegria, era o meu prato de ouro. Não raro, pedia mais um ou dois ovos, até que isso começou a me atacar o estômago. Afinal era sempre a mesma coisa nas duas principais refeições. E também tomava ovo quente pela manhã.

Em reuniões familiares, virou até rotina me perguntar antes da refeição, o que eu iria comer. E aí vinha a minha resposta com a voz ardida e alta:
– "arroz puro com mexidinho".
E isso rendeu boas risadas com o passar dos anos. Quando o tempo fechava para mim, tinha uma boa citação de advogado para me defender, o meu tio Olavo Ferrari também era louco por arroz branco e ovos e estava lá para me justificar. Éramos dois oófagos e o caso estava encerrado. “Punto e basta!”

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