Capão Redondo

Inolvidáveis tempos aqueles passados nas matas do rotundo e circular Capão Redondo. Eu costumava frequentar a região nos idos fins dos anos 40 e começo dos de 1950, geralmente nos fins de semana, para passear e fazer incursões pelos campos e matas virgens pelos caminhos das picadas e desfrutar da natureza onde predominavam as colinas, a velha cachoeira e os bosquezinhos de araucária. Geralmente, escolhia um pedaço de chão e carpia o mato em volta armando a minha barraca de lona em um lugar alto e seguro.

Já naquele tempo, havia no lugar algumas plantações de tomates e batata doce. Nessa época havia um riacho que passava atrás das matas ciliadas e era um local apropriado para pescarias. Da minha barraca montada no liso do terreno avistava os cimos levemente azulados e transparentes das montanhas para os lados do serrado de Itapecerica. De trás da aluvião que se formara após o temporal do dia anterior, se estendia uma floresta imensa. Uma alegria, uma espécie de gratidão para com a beleza da paisagem penetrava minha alma só ao olhar os caminhos rescendentes a raízes e folhas; o acre aroma da resina intensa como o do cerne de algumas plantas causava-me, às vezes, uma viva excitação e eu ia então tranquilizar os sentidos na sombra das árvores imensas, onde, pouco a pouco, tudo dentro de mim se transformava em harmonia e serena força.

Frequentemente, à noitinha, ao regressar da caça para a minha barraca, sentia-me envolvido pela mansa quietude do lugar e um êxtase me penetrava. O vasto silêncio só de vez em quando era cortado pelo áspero grito de algum pássaro, após o qual a tranquilidade voltava a ser mais inefável e balsâmica. Da abertura na lona da barraca avistava algumas poucas construções de casinhas do operariado e, mais adiante, se via o amontoado de vigas de madeira de uma serraria. Naqueles tempos, a cidade era tranquila, ainda provinciana e não havia o menor vestígio de violência.

O despertar era tranquilo e durante um momento ficava surpreendido de encontrar-me naquela barraca, à beira da floresta em volta. Próximo de lá, havia na época diversas olarias. No lugar não havia luz, água encanada e nem esgoto. Era obrigado a acender o bico do lampião de gás para alumiar dentro da barraca. Naqueles tempos, a estrada de acesso à região era acidentada e ruim. Os caminhos eram de terra socada, sem iluminação. Pelo lugar gravitavam para o transporte local algumas carroças. Eu alugava uma para transportar as tralhas do acampamento e era ela dirigida pelo carroceiro puxado por um burrico que custava o dobro de uma passagem de trem.

Na região em volta dos sítios eram formados por lavouras com grandes plantações de batatas; ao longo, também, surgiam grandes pomares com muitos pés de caquis, mexericas, peras, limões. Geralmente em volta destes pomares havia muitos eucaliptos. Os alemães gostavam desse ar puro, seco, saudável e muitos deles ali vieram a se instalar. Recordo do dia em que fui à caça pelas redondezas e fui surpreendido pela chuva e me refugiei sob o alpendre de uma igrejinha velha, abandonada, próximo à curva do "S". As chuvas do início da primavera e o tempo logo realizaram sua tarefa de fundir os ventos, fazendo renascer dos ramos secos dos arbustos crestados pelo inverno e os caminhos se enfeitavam de folhas verdes muito vivas; as gralhas, vindas do Rio Pinheiros, traziam no ar ásperos grasnidos ao abandonar os ninhos em debandada; depois, em uma certa manhã milagrosa, tornou a aparecer de novo o sol, lavado, esplendoroso, por detrás das montanhas. Uma onda de felicidade penetrou-me ao vê-lo transpor os píncaros distantes das montanhas do serrado de Itapecerica.

Continuarei indefinidamente essa história? Não, escreverei apenas mais um pouco, para contar os magníficos tempos nesta bonita região de São Paulo e transcrever o triunfo maravilhoso daqueles finais de semanas passados junto ao cheiro de enxofre vindos da terra e o hálito das folhas mortas ao decomporem-se. Pelos fins de 1950 começo dos anos 60 a região era de uma beleza inigualável. Por uma brusca noção do tempo, tão levemente fugitivo, punha o bornal às costas e continuava pelo caminho, na penumbra crepuscular, logo encontrava o costumeiro atalho, por cujos zigue-zagues seguia sem muita pressa, ao passo melancólico rumo ao caminho do Rio Pinheiros onde atravessava a velha ponte em direção a Santo Amaro.

Olhei mais uma vez para trás e vi ainda no céu para os lados do oeste, nos confins ocidentais, as manchas vermelhas e profundas parecidas com azeite. O céu, durante um momento, brilhou límpido até que, muito devagar, com maravilhosa timidez, as estrelas começaram a viver. Agora, o firmamento esplendia de pequeninas luzes de azulada prata. Eram milhares, milhões e havia alguma coisa de grande e tão nova na eterna repetição deste espetáculo que meus olhos se comunicaram intimamente com minha alma, dando-lhe a sensação de estar contemplando as profundezas da obra de Deus.

Está terminada essa narrativa, toda ela escrita somente para passar o tempo e para me distrair. Tudo o que aí fica registrado é para matar o tempo, para me dar o prazer de evocar aqueles dias de primavera nas excursões de fim de semana para os lados do Capão Redondo, cujas rápidas horas tão breves fugiram assim como tão ligeiras elas chegaram. Hoje, faz um calor intolerável e o dia findado sem me abandonar a terrível sensação de que o tempo mal transcorre e já me sinto exausto. Talvez seja o calor do dia. Entra um demasiado vento pelas quinas das arestas no vértice da barraca. O vento da primavera adormeceu os meus sentidos, que assim ficarão esperando pela vinda da nova estação do outono naqueles tempos idos e intensamente vividos na magnífica região dos fundões de Santo Amaro.

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