Caminhos paulistanos, caminhos paulistas, caminhos.

Andava meio sem rumo em meados dos anos 70. Acho que o mundo todo andava assim, como eu. Otto Lara Rezende dizia que "Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto". Acho que era assim que me sentia. Queria aprofundar-me, ávido de conhecimento, mas todas as portas estavam meio que fechadas. Tudo se perdia na nebulosidade do pensamento então vigente no país. Eu não pertencia a essa época, ou não me sentia "enquadrado" nessa época. Queria mais.
Não tinha, claro, intenções faustianas; minha sede se aplacaria com bem menos, com um preço infinitamente menor. Então, no torvelinho de S. Paulo, buscava o que a cultura estabelecida me negava. Aí, passei a caminhar com rumo; sabia o que buscava.
Criei regras e passei a andar pela cidade sempre em busca de coisas novas e surpreendentes. Masp, Mam, Pinacoteca, biblioteca Mário de Andrade. E, num tempo de ditadura, de censura, de televisão massificante, busquei as coisas que precisava. Construí meu painel interior.
Lembro que um dia – 30 de setembro de 1975, em plena primavera brasileira – embarquei em um sonho. Após prestar concurso público, assumi uma vaga no Vale do Paraíba. Deixei minha querida cidade, miscelânea maior da cultura brasileira, e fui beber na cultura regionalista do Vale. Andei pelas ruas que Lobato viu, pelas cidadezinhas que eternizou – não sem uma pitada de maldade – subi a feira da breganha aos pés do Cristo. No rio, naveguei.
E, descobri então – na verdade acho que sempre soube isso – que não importa onde ou como a vida aconteça, ela tem que ser plena e, para atingir essa plenitude, só há um caminho: a liberdade, liberdade que só se adquire através do conhecimento que não é um fim em si mesmo, mas a eterna procura.