Câmera virtual

Quando fiquei sabendo que a 25 de março tinha câmeras que mostravam todo o movimento da rua pela Internet, imediatamente entrei no site e dei um bom passeio pela minha rua preferida. Foi emocionante descobrir que da minha casa na Europa eu podia ver as lojas de tecido na esquina com a Ladeira Porto Geral e o homem estátua que se posta na outra esquina, os carrinhos carregados de papelão no fim do dia e as barracas dos camelôs, se bem que um pouco distantes. Nos dias de chuva ficava daqui olhando a multidão embaixo dos guarda-chuvas, as calçadas brilhando na quase noite, alguém atravessando a rua rumo ao metrô, carregando sacolas e pacotes. Quem seriam essas pessoas? Jamais poderiam pensar que alguém do outro lado do mundo, uma paulistana, estava acompanhando seu andar pelas ruas de São Paulo por meio da Internet, apenas por saudade de uma cidade que também é minha e de um povo que também é meu.

Chegando em São Paulo no ano passado tive uma ideia: marquei com a minha filha dia e hora para que ela entrasse no site aqui no País de Gales e me visse em frente a uma certa loja na região da 25 que as cameras pegam bem claramente. Para ter certeza de ser vista, disse que ia usar vermelho e que ia acenar. As coisas que a gente faz para aparecer na Internet! Achei que ia ser uma brincadeira interessante.

No dia marcado lá fui eu para a 25 de metrô e, como ainda era cedo, andei de cá pra lá comprando bugigangas, como sempre faço. Localizei a câmera, já estava quase na hora. Podia imaginar a minha filha entrando no site e procurando ver a sua mãe de camiseta vermelha, toda feliz, num dos lugares que mais amo no mundo – no meio da confusão, das cores, cheiros e compras da 25 de Março.

Enquanto ainda tentava comprar mais algum badulaque dos camelôs (adoro colares com conchinhas, transfers para camisetas, pacotes de brincos, seis por 4 reais), o tempo começou a mudar e notei que o céu estava preto! Era chuva que vinha, e chuva brava. Plásticos foram colocados sobre as banquinhas, algumas foram rapidamente desmontadas e começou a correria para fugir da chuva. Um raio cortou o céu de São Paulo, um trovão se seguiu e a chuva despencou sobre nós todos, compradores e vendedores, todos correndo para todo lado, uma confusão digna da 25.

Parei na entrada de uma loja para me esconder da chuva. Olhei meu relógio, eram cinco para as quatro, o horário marcado com a minha filha era quatro horas da tarde no Brasil, uma hora em Gales. Não podia desapontá-la. Saí correndo dali, tentando passar depressa por entre a multidão que tambem corria, e fui ficar em frente da tal loja de onde a Deborah poderia me ver. A chuva era um verdadeiro dilúvio. Raios e trovões cortavam o ar. Quatro horas, eu de pé no meio da água, vestida de vermelho vivo, acenando com os dois braços em direção à camera no alto do prédio em frente. Ainda bem que em São Paulo ninguém liga para as esquisitices dos outros.

A chuva inundou parte da rua. Um carro da polícia fazia a travessia dos passantes que se agarravam do lado de fora do carro e eram depositados na outra calçada. A parte mais baixa da enchente era atravessada a pé, calças arregaçadas e calçado na mão. Todo mundo parecia pra mim estar de bom humor, achando graça na situação. Fiquei algum tempo dentro de uma outra loja com várias outras pessoas esperando o pior da chuva passar, a conversa ia animada e só faltou o cafezinho. Povo bom o povo paulistano!

À noite telefonei para a minha filha para saber se tinha me visto pela câmera.

“Olha, mãe”, ela me disse, “não deu pra ver nadinha. Choveu?”

Se choveu!

Decepção. Ainda apareço na Internet.

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