1954 ou 1955. Já não me recordo, com exatidão. Minha mãe, para reforçar o restrito orçamento doméstico, vendia roupas. Por muitos anos o fez. Roupas, em geral, e que comprava – mais em conta – na José Paulino. Ou na Maria Marcolina, na Oriente. Para atender freguesas espalhadas por vários cantos da cidade. Eu às vezes ia com ela. Tanto quando comprava como quando vendia. Como ainda criança, mais atrapalhava ("Me compra isso? Me compra aquilo?") que acompanhava, propriamente.
Lembro ainda bem de quando tomávamos o bonde, em direção ao Brás. Ali, em um cantinho da Praça Clóvis. Aquela bela visão, do topo, a Rangel Pestana se esticando até o "infinito", bem além – muito além – do Gasômetro… O bonde em via exclusiva – tal como "perto" de onde eu morava – como na Domingos de Morais e na Jabaquara. O bonde "reinando", num caminho só dele…
Eu, embora moleque, me impressionava com a floresta de fábricas lá do Brás. Quantas chaminés! Sempre gostei, desde pequeno, daquele cenário de prédios industriais, trilhos, fios, porteiras, veículos… O bonde virando na curta Rua Vasco da Gama e ganhando – escalando – o belo Viaduto do Gasômetro. O Largo da Concórdia e seu teatro. Do lado oposto – minha mãe esclarecia – era a "Estação do Norte" – que já se chamava Roosevelt. Eu não podia deixar de ver, de pertinho, as porteiras do Brás! De modo algum. E, no mínimo, esperar um trem passar. "Espera, mãe! Unzinho, só!". E esperava, mesmo…
Uma vez por mês, minha mãe ia a Santos. Vender roupas. Onde ficava por dois dias. Eu, ou ia junto (raramente) ou ficava aqui, no Planalto, na casa de algum parente (a contragosto – de nós, ambos). Ela ia, tal qual aqui, vender roupas, de porta em porta. Ganhar um laborioso dinheirinho – não sem tomar alguns calotes. Calotes, ao nível do mar, é claro.
Tempo em que – eu adorava ônibus! – viajar para Santos era – de duas, uma: Cometa ou Brasileiro!
Eu me fascinava. Ou os belos azuis e creme, os Twin, da Viação Cometa – que partiam da Clóvis, perto dos Bombeiros – ou os de ronco poderoso, coaches americanos (também), verde e amarelo, do Expresso Brasileiro. Que saíam do Parque Dom Pedro – quando ele era, de fato, parque! E lindo! "E.B.V.L.", dizia a sigla daqueles GM, na traseira: um triângulo vermelho, quem lembra? E anos depois, com certeza para mais de perto concorrer, o Brasileiro se instalou na Tabatinguera, esquina de João Mendes. Para ficar ali mais perto da Cometa, por certo… Tempos em que São Paulo não tinha rodoviária. Nem a da Júlio Prestes, de pastilhas coloridas nas paredes. Que é de 1961.
Ir para Santos! Ainda que o meu "passeio" se restringisse propriamente à viagem. Desfrutar de nada – nem de praia! Mas, mesmo assim, era gostoso. Imagens que a retina fotografava, até uma demorada nova oportunidade: o Parque Shangai (Xangai?), o belo prédio de tijolinhos vermelhos, da Mesbla (ainda de pé); o Tamanduateí todo orlado de árvores; duas ou três pequenas pontes, cruzando o Rio, unindo Cambuci, de um lado, a Mooca, de outro.
Vagamente, muito vagamente mesmo, ainda "vejo" a lagoa do Sacomã e a Anchieta, que no trecho urbano já tinha cara de estrada – ao contrário da imensa avenida, dos dias de hoje.
Maravilhosa Anchieta! De tão lindamente sinuosa, serpenteando pela Serra, impossível de não impressionar – e os túneis?! – mesmo uma criança.
Nunca poderia imaginar – eu, percorrendo-a no coach, que deslizava suave e velozmente, que a Estrada tivesse sido inaugurada justamente no ano em que nasci: 1947… Na Serra, o infalível "clec" nos tímpanos: ação de "dona" pressão atmosférica, não?
Enfim, um pequeno dinheirinho auferido, para reforçar o orçamento; um novo calote, inevitável, e a hora de subir a Serra. Sempre à noite, no fim do "expediente". Vila Mariana é o destino. São Paulo e Santos descansam…
A saudade alimenta a memória. Esta historinha é só o prazer de compartilhar. Aliás, um privilégio.
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